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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Luta de Classes Na Grécia Hoje: É O Velho Capitalismo

"Lutar/ Quando é fácil ceder/ Vencer o inimigo invencível/ Negar quando a regra é vender." (Chico Buarque)

Liguei hoje à noite a televisão, pois queria saber o que o parlamento grego tinha decidido na votação que está inflamando ainda mais o povo grego. Liguei para ver o que os telejornais tinham a dizer para tentar nos formar (não informar, visto que não é esta a função das televisões), ou seja, para tentar nos convencer de que suas opiniões são ou as únicas ou as verdadeiras. Na Globo News ouvi dizer que ocorrera a aprovação e que diversas pessoas "violentas" (palavra da correspondente do sistema Globo) se recusavam a aceitar a decisão. Disse a repórter: "A polícia está lançando muita bomba de efeito moral... é a única maneira que ela vê para conter a ação dessas pessoas violentas.".

Há de se perguntar: O que é a violência? De onde surge? Quem a produz? É do dramaturgo alemão Bertolt Brecht uma frase famosa que nos ajuda a repensar esta questão. Disse ele: "Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem." Poderíamos perguntar a tal repórter quem começou a violência na Grécia: O rio que tudo arrasta ("essas pessoas violentas" que protestavam contra a possibilidade de ficarem sem emprego e, portanto, sem ter a sua sobrevivência assegurada) ou as margens que o comprimem (a violência capitalista que produziu os FMIs, insegurança financeira, Estados polícias...)? É bem possível que a resposta já esteja na própria fala da repórter e nas interpretações dadas pela empresa para a qual trabalha. Qualquer análise simples de sua fala deixa bem claro qual é a sua posição. O seu ponto de vista é o da polícia, isto é, da parte repressora do Estado grego. Ou não seria isto que quer dizer a frase "é a única maneira que ela (a polícia) vê para conter as ações dessas pessoas"? É claro que colocar um ponto de vista sem colocar o outro já é ser tendencioso, ainda mais quando se usa o adjetivo "violentas" para qualificar as pessoas que não concordam com o ponto de vista apresentado.

Qualquer leitura de qualquer jornaleco nos informa que na Grécia está previsto demissões, cortes de gastos públicos, aumentos de impostos e privatizações. Tudo isto para receber uma parcela de 12 bilhões de euros como ajuda "oferecida" pelo FMI e pela União Européia, mas que em troca exigem um corte de despesas para se poupar 28 bilhões e fazer reformas na Grécia. Na primeira rodada de ajuda do ano passado, a população grega viu o seu governo cortar em 10% o salário de 800.000 funcionários públicos. Isto tudo provocou reações (como perguntava o velho rock da banda Titãs: "Quem quer manter a ordem? Quem quer criar desordem?") que levaram o povo grego a realizar uma radicalizada greve geral de 48 horas. A greve  e os demais protestos partem do conhecimento de que os trabalhadores estão pagando a conta e que, aprovada a proposta do Parlamento Europeu na Grécia, terão que pagar muito mais. Só este ano o Estado grego pretende aumentar a arrecadação de imposto em 2.02 bilhões de euros (o que é muito para o tamanho da economia grega) e no próximo ano o aumento será de 3.68 bilhões de euros. Além disso, o governo fará um drástico corte de despesas nos chamados benefícios sociais. Só a saúde perderá 310 milhões de euros. Além disso, estão impondo ao povo grego a velha receita contra a crise liberal: mais liberalismo com a venda do patrimônio público para alguns empresários, ou seja, as conhecidas privatizações do receituário liberal do velho século XVIII. Primeiro o liberalismo fala em poder absoluto do mercado (a iniciativa privada- dos capitalistas, é claro- deveria agir livremente, pois a mão invisível do mercado conduziria ao bem estar), depois , quando vem a crise, a proposta é vender o patrimônio público a preço de banana e fazer a classe trabalhadora pagar o pato.

Como se percebe, não dá para compartilhar do ponto de vista da referida jornalista, até porque, como já disse, o seu ponto de vista é o dos repressores e do Estado capitalista. O ponto de vista deste blog só pode ser outro. Fico do lado das águas do rio. Elas caminham para o seu destino, por mais que as margens tentem reprimi-las. Como querer a passividade de um povo que vê seu destino ser vendido por parlamentares. Fala-se em governabilidade no ideário neoliberal- começamos a ouvir isto no Brasil desde o governo de FHC-, mas o que é a governabilidade nada mais é do que uma categoria (falsa ideologia mas que produz ações concretas) criada na sociedade capitalista favorecendo a meia dúzia de empresários multinacionais e prejudicando quase a população toda. Fala-se em responsabilidade do Estado nacional e deixa uma nação a mercê de um estado submisso aos interesse estrangeiros. O povo grego vai pagar a conta. Assim como o povo espanhol, o português, o francês... Até porque a classe trabalhadora precisa se reorganizar. Há quase vinte anos atrás caia a União Soviética e o seu sistema político ditatorial. No entanto, ela era a prova viva de que os trabalhadores podem enfrentar e derrotar este sistema caótico que vê no deus-mercado o seu guia e desperdiça as vidas das pessoas. O mesmo sistema que hoje põe em risco a vida no planeta e que vive produzindo guerras como forma de destruir um contingente de pessoas que estariam fora do mercado.

O velho capitalismo está ficando senil. Mas se quer imortal. Anda por aí como um morto-vivo sugando o sangue, os músculos e a alma dos trabalhadores. Devora, o morto-vivo, inclusive a esperança de dias melhores e muitos passam a se conformar com o destino dado pelo deus-mercado. É uma nova forma de conformismo. A igreja medieval produziu o conformismo cristão pregando que se deveria aceitar o destino que teria sido dado por deus. O capitalismo cria uma forma de conformismo mercadológico e democrático. Prega ele que devemos aceitar o destino que o deus-mercado e a santa-democracia estão traçando para nós. Se aceitarmos sofrer (desemprego, fome) um pouco agora encontraremos o céu (seus shoppings) do capitalismo para desfrutarmos. Como diz a velha canção: "pecado, rifa e revista/ o pobre paga é a vista/ a felicidade, o conforto, a alegria e a sorte/ vendeu fiado pra deus / vai receber depois da morte".

O velho capitalismo ainda deve permanecer sugando corpos e almas durante muito tempo. Não porque o seu Estado carcomido dê conta das contradições que este sistema produz. Mas o fato é que a classe trabalhadora precisa retomar suas lutas (o que até certo ponto se tem feito), mas para isso ela precisará produzir novas lideranças, novos intelectuais orgânicos (na linguagem do marxista italiano Gramsci). Sindicatos e partidos políticos, com certeza, ainda são importantes. Mas é preciso se perceber que a esquerda conciliadora (que diz defender os trabalhadores, mas que de fato está a defender os interesses patronais) é um grande empecilho para o desenvolvimento de uma consciência crítica e combativa. A esquerda conciliadora acaba confundindo os trabalhadores. Ela é eleitoreira e mais palatável, por isso recebe votos e em alguns lugares conquista o governo. Aí começa o transformismo (conceito usado por Gramsci para descrever a esquerda que se transformava em direita) e o seu governo acaba também defendendo o empresariado. É isto que vimos , por exemplo, no Brasil de Lula e nas sua política de defesa das grandes montadoras de carros. É o que continuamos a ver no governo de Dilma e de seus em emprétimos bilionários  para as grandes empresas.

A classe trabalhadora talvez consiga gestar bons líderes em um futuro próximo. A luta poderá forjá-los. Por enquanto veremos lutas pontuais contra ditaduras e contra arrochos salariais impostos pelo empresariado mundial. Parece confuso o que estamos assistindo no mundo. Mas estamos diante da velha luta de classes tão bem trabalhada no velho Manifesto Comunista de Marx e Engels. Desde o fim do socialismo real na velha União Soviética o empresariado mundial vem retirando direitos sociais e trabalhistas da classe trabalhadora no mundo. O capital avança sobre as riquezas criadas pela natureza e pelo ser humano. Mas ele não faz isto sem resistência dos explorados. É o que acabamos de ver na Grécia e veremos mais adiante em outros países.
Fevereiro de 2013, e ainda a miséria capitalista na Grécia.
 

segunda-feira, 27 de junho de 2011

QUEM VIVER CHORARÁ (EU CANTO)

O conforto da cama não foi suficiente para que eu não me levantasse e me pusesse a escrever. Nem mesmo o aconchego da pele macia da amada dormindo me manteve na cama.  Pareço que vou implodir se não encontrar uma válvula de escape para esse turbilhão de sentimentos que a nostalgia me trouxe. E olha que ela só surgiu porque resolvi procurar uma música no You Tube. Não  encontrei a que eu queria inicialmente, mas encontrei algumas canções de um disco maravilhoso gravado em agosto de 1978: "Quem Viver Chorará" ou "Eu Canto". O disco tem realmente dois títulos. Na capa é "Eu Canto", primeiro verso do poema "Motivo" de Cecília Meirelles e que ganhara uma bela  melodia. Mas o disco é também conhecido pelo título de sua contracapa: "Quem Viver Chorará", que também nomeia a única música instrumental do disco, um chorinho imperdível, mas que o amigo só encontrará  na internet na apresentação feita por Angelo Santedicola (ver último vídeo desta postagem) . Em quem viver Chorará o músico nordestino mantém uma dose de experimentalismo já apresentado em outros discos.
  
Diversas gravações deste disco de 1978 são memoráveis. A parte instrumental é maravilhosa não só em "Quem Viver Chorará". Há diversos outros solos instrumentais: de guitarra, de cavaquinho, etc.  Os arranjos e regência são do próprio cantor que, também como diretor musical, selecionou instrumentistas de primeira linha: Robertinho de Recife, Ife, Chico Batera, Dino, Manassés, Ozias e outros. Além disso, as vozes (no plural mesmo) do cantor valorizam as músicas lhes dando interpretações mais contundentes das letras e das melodias. Nessas interpretações com uma voz sobre a outra, faz-se (re)gravações definitivas e dando novos estilos às gravações originais. É o caso, por exemplo, de "As Rosas Não Falam" que Cartola considerou a melhor versão de sua música, mas o mundo do samba não gostou, pois nesta regravação a canção deixa de ser um samba (como o cantor já fizera com "Sinal Fechado" de Paulinho da Viola, mas que não conseguira um resultado tão bom). Outro bom exemplo de mudança de estilo imposta no disco acontece na música "Acalanto para Um Punhal" que ganha um toque cigano com a inclusão de uma guitarra  flamenca tocada pelo cantor e por Pedro Soler. A música "Jura Secreta" de Sueli Costa e Abel Silva que fora antes gravada por Simone passa também por mudanças que a deixam muito mais contundente. A sobreposição de vozes e o instrumental  fazem com que a bela canção pareça ter sido gravada pela primeira vez.

Em "Motivo" é acrescentado o "vocalise" de Amelinha, cantora até então desconhecida. Diz a poesia de Cecília Meirelles: "Eu sei que canto e a canção é tudo/ Tem sangue eterno a asa ritmada/ E um dia eu sei que estarei mudo/ mais nada". E olha que a poeta  se dizia, na mesma poesia, ser irmã das coisas fugidias, e que não sabia se permaneceria ou se se desfazeria. Mas hoje, ouvindo estas músicas, parecem mesmo que são eternas as asas ritmadas. Além disso, a canção me fez conhecer a poeta Cecília, a mesma que já tinha versos seus musicados na  bela canção "Canteiros". O músico responsável por "Quem Viver Chorará" tem o belo hábito de musicar poetas: além de Cecília, ele deu asas ritmadas a Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Mario de Andrade e outros. No entanto, em  Canteiros o músico não deu os devidos créditos à poeta que ele adaptara sendo, portanto, acusado de plágio. Mas as asas ritmadas são eternas. Ainda hoje canto no banheiro e nas caminhadas pelas ruas da cidade estas canções. As vozes, a poesia, os instrumentos se eternizaram dentro de mim.

O disco tem outras belas canções (Pelo Vinho e Pelo Pão, Cigano) e a que ficou mais famosa e deu reconhecimento ao cantor foi "Revelação". A pequena letra nos fala do sentimento recalcado ("Sentimento ilhado/ morto, amordaçado") que quando parece esquecido sempre retorna ("volta a incomodar"). O solo de Robertinho de Recife na guitarra é imperdível. A música foi o primeiro sucesso popular na voz agreste do cantor cearense. Seu sucesso só foi superado mais tarde pela  música "Noturno", mais conhecida pelo grande público pelo nome "Coração Alado" (do  disco Beleza, também memorável) que foi tema de abertura de uma novela global com o mesmo nome. "Beleza", "Quem Viver Chorará" e "Traduzir-se" são, na minha opinião, os três grandes momentos do cantor, músico e compositor Raimundo Fagner. Três obras-primas da nossa vasta e rica MPB. Há quem critique, e com certa razão, os caminhos musicais tomado pelo artista posteriormente, mas estes três discos são fundamentais para a MPB, principalmente se lembrarmos que na época reinava por aqui as discoteques e suas músicas de pouca inspirações. Fagner, Ednardo, Belchior, Alceu, Zé Ramalho da Paraíba, Xanguai, Geraldo Azevedo, Elomar e outros nos mostraram o quanto era rica a música moderna do nordeste.

Seguem alguns vídeos retirados do You Tube com interpretações de nosso cearense Raimundo:

Revelação

Motivos

Apresentação do Disco de 1978 por Angelo Santedicola

segunda-feira, 20 de junho de 2011

AOS MESTRES, COM CARINHO (ESPECIALMENTE À MERCEDES)

A EDUCAÇÃO PÚBLICA  ESTÁ EM GREVE... OUTRA VEZ
 "Não pense que a cabeça aguenta se você parar/(...)/ Tente/ E não diga que a vitória está perdida/ Se é de batalhas que se vive a vida/ Tente outra vez" (Seixas, Motta e Coelho)

Esta postagem expressa um pouco do sentimento que muitos sentem em relação ao descaso de nossa sociedade com a Educação Pública. É um sentimento ressentido, um ressentimento pelo desprezo que a sociedade quase como um todo demonstra pela criação de nossas crianças e jovens e por aqueles que tem a função e compromisso de trabalhar diretamente com o ato de educar.

Há pouco tempo todos vimos a mobilização justa da sociedade em prol das reivindicações dos bombeiros. Fitas vermelhas se espalharam pela cidade. Uma delas carrego pendurada em minha mochila. Creio que se a metade deste apoio fosse dada às diversas mobilizações realizadas pelos profissionais da educação nos últimos trinta e dois  anos, a Educação Pública do Rio de Janeiro (cidades e Estado) não teria perdido tanto em qualidade como constatamos hoje. Ainda não ficou pior porque os seus profissionais insistem na defesa de suas vocações. Mas esta não é um sacerdócio, é uma profissão que precisa e deveria ser muito bem remunerada.

Em 1979 era eu aluno de uma escola municipal da cidade do Rio de Janeiro e descobri que não era apenas os metalúrgicos de São Paulo que sofriam a exploração capitalista e a dominação de uma ditadura que já caducava (embora ache eu que toda ditadura já nasça caduca). Os professores também sofriam. Aqui no Rio de Janeiro, na velha Escola Muniucipal Pará, um grupo de professores participava bravamente da greve da categoria dos educadores. Lembro ainda hoje com muito carinho da jovem professora de Língua Portuguesa, protestante tanto na religião quanto em sua bravura, mas que no final da greve estava ressentida com a falta de apoio da sociedade e com alguns colegas que se acovardaram. Esta greve teve até algumas conquistas que agradaram os profissionais da época. Mas em mim, o que marcou até hoje foi  perceber que aqueles que me davam aulas eram como os demais trabalhadores e não uma casta superior e intocável. Ser professor e ser parte da classe trabalhadora deixou de ser uma contradição para mim. Pelo contrário, passou a ser um exemplo de boa profissão... E eu que, ainda jovem, pensava que lutar politicamente era coisa de estudantes iranianos e de homens barbudos das montadores de carros de São Paulo.  A jovem professora, a única a falar sobre a greve quando esta findou, marcou ainda mais o meu imaginário. Ela  me daria ainda naquele ano duas outras boas lições de cidadania: a defesa das mulheres contra o machismo da linguagem usada por mim e o respeito à cultura popular ao "dar doce" mesmo sendo protestante (explicou-me que achava bonito as crianças correndo atrás dos doces e que só tinha o cuidado de não comprar saquinhos de doces com imagens católicas).

Os professores entram jovens em suas profissões, passam anos cuidando de crianças e outros jovens. Amadurecem e os cabelos branqueiam (mesmos com as tinturas disfarçando a marca do tempo na cabeça de alguns mestres). As salas de aulas são durante anos a maior parte do mundo dos educadores. Mesmo na sala de suas casas e nos seus quartos, a escola se faz presente: preparação de aulas, correções, preocupações com o menino ou menina que não aprende ou cujo comportamento precisa ser retrabalhado... Tudo isso e muito mais faz da profissão do professor algo especial, uma boa profissão... E, além disso, cada vez mais os professores são atacados pelos governos de plantão. E pais. E estudantes. É redução dos direitos à aposentadoria, é congelamento salarial em um mundo de inflações cada vez maiores (principalmente nas cestas de alimentos). É a tentativa de desqualificar o saber de quem está na sala de aula através de interventores pedagógicos. É um diretor autoritário não eleito por ninguém dizendo que o seu cargo é de confiança (do governo e não da sociedade). É é a falta de vale transporte ou de alimentos. É um turbilhão de propostas pedagógicas misturadas e um outro turbilhão de projetos impostos. É o caveirão adentrando as favelas e pondo em risco alunos e profissionais.   É a sociedade dizendo com o seu descaso: "bem feito! quem mandou querer ser professor..." É um inumerável tipo de questões fazendo com que a saúde mental dos professores passe a ser um dos maiores problemas da profissão (a síndrome de Burnet, no caso dos professores, ataca muito mais o psicológico do que o físico). Resumindo: é uma boa profissão para a sociedade, mas bastante maltratada.


O interessante, porém, é que os mestres continuam a nos dar lições com as suas lutas. Hoje a jovem professora Mercedes deve estar com alguns cabelos brancos e já não sei se ainda leciona, mas este seu aluno ainda traz consigo um pouco das aulas de português (os erros aqui presente não tiram os seus méritos) e muito de seus exemplos, principalmente da boa conjugação dos verbos questionar e lutar no presente do indicativo e no futuro.

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O vídeo abaixo retrata um pouco da questão que todos já conhecemos




Tente Outra Vez
( Raul Seixas / Marcelo Motta / Paulo Coelho)

Veja!
Não diga que a canção
Está perdida
Tenha fé em Deus
Tenha fé na vida
Tente outra vez!...

Beba! (Beba!)
Pois a água viva
Ainda tá na fonte
(Tente outra vez!)
Você tem dois pés
Para cruzar a ponte
Nada acabou!
Não! Não! Não!...

Tente!
Levante sua mão sedenta
E recomece a andar
Não pense
Que a cabeça agüenta
Se você parar
Não! Não! Não!
Há uma voz que canta
Uma voz que dança
Uma voz que gira
Bailando no ar

Queira! (Queira!)
Basta ser sincero
E desejar profundo
Você será capaz
De sacudir o mundo
Vai!
Tente outra vez!

Tente! (Tente!)
E não diga
Que a vitória está perdida
Se é de batalhas
Que se vive a vida
Tente outra vez!...

terça-feira, 14 de junho de 2011

A PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO TENTAR RETIRAR DIREITOS DOS FUNCIONÁRIOS

É sabido por todos que desde o fim do que se chamava de socialismo real na antiga URSS, as classes empresariais e governos dominados por elas tentam retirar direitos trabalhistas conquistados pelos trabalhadores depois de muitas lutas e de muito sangue derramados. Isto ocorre em todo mundo, como podemos ver na Espanha e na Grécia. O Brasil não faz diferente e os trabalhadores sofremos diariamente ataques contra o que conquistamos no decorrer do século XX. Nem sempre podemos ver isto acontecendo nos jornais: a mídia capitalista só noticia o que ela quer, mesmo que o assunto seja de interesse de todos. Neste exato momento, os trabalhadores da prefeitura do Rio de Janeiro correm o risco de perderem direitos relativos à aposentadoria. A resposta deve ser dada por todos os trabalhadores pois a reforma da previdência de Eduardo Paes é uma das séries de reformas previdenciárias que avassalarão o Brasil. Não é apenas uma luta corporativa, é a velha luta de classes impulsionada pelos grandes capitalistas de olho nos orçamentos públicos e que acham que o Estado deve investir (em suas empresas) e não gastar com o bem estar dos trabalhadores que pagam durante anos para terem direito a uma aposentadoria que já é ruim e que  ficará pior. À luta, amigos, é chegado a hora de mais uma batalha pelo futuro pois se dependermos dos representantes do Estado e do empresariado, retornaremos à condição de escravos... e morreremos trabalhando, esmolando ou nas filas dos bolsas famílias ou coisa do tipo.
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A prefeitura enviou para CMRJ na última quinta-feira, dia 09/06, para ser apreciado e votado em regime de urgência, o PROJETO DE LEI Nº 1005/2011, que DISPÕE SOBRE O PLANO DE CAPITALIZAÇÃO DO FUNPREVI E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS.

Este é o projeto que o prefeito prometeu apresentar como "solução" para sanar o déficit do Previrio e, a partir de sua aprovação, votar tb o PLC 041 que modifica o regime de previdência dos servidores municipais, extinguindo conquistas como a paridade e a integralidade
Os dois projetos podem ser votados a qualquer momento.
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quinta-feira, 9 de junho de 2011

ESTAMPAS EUCALOL: QUEIXA (Para Amanda)

Na início do século XX, entre 1926 e 1957, fabricava-se no Brasil os sabonetes Eucalol. Até 1930 houve uma certa rejeição do público aos sabonetes, talvez pela novidade da cor verde já que era feito à base de eucalipto. Até então, sabonetes que aqui eram fabricados tinham cor branca ou rosa. 

A partir de 1930 os sabonetes Eucalol  caíram no gosto popular  devido a uma campanha de publicidade que era uma novidade na época. Os irmãos Stern, proprietários da Perfumaria Myrta que fabricava os sabonetes, lembraram das "estampas  Liebig que tanto sucesso faziam na Europa e resolveram lançar as ESTAMPAS EUCALOL, convidando o público a colecioná-las com um anúncio publicado no suplemento do jornal "A Noite" em 11 de junho de 1930" (1) Os sabonetes passaram a trazer no interior de suas caixas estampas com imagens de temas variados, entre eles das mitologias (ou lendas) europeias e brasileiras, para incentivar o colecionismo. As estampas chegaram até mesmo a serem usadas em escolas como material didático, principalmente as séries de estampas que tinham como título História do Brasil e Lendas do Brasil.

Mais tarde a fábrica foi comprada pela multinacional Gessy Lever que passaram a produzir as estampas Gessy que retratavam astros e estrelas de Hollywood. O imaginário infantil, que antes  se deleitava com as mitologias/lendas e com as viagens que isto permitia, saiu perdendo para o mundo das imagens de estrelas do cinema e da televisão. Com o mundo da televisão, o imaginar começou a perder espaços para o visualizar. A imaginação que produz imagens estimulada pelo exterior perdeu espaço para as imagens prontas e produzidas por terceiros: imagens criadas pela mente substituídas por imagens prontas nas telinhas dos televisores. Nossa infância perdeu um pouco do delírio e ficamos paralisados pelos raios paralisantes captados pelas antenas e produzidos não se sabe onde. O romantismo também perdeu um pouco: novelas foram substituídas por telenovelas. As primeiras escritas para serem lidas (nos livros). Depois interpretadas nas rádios. De ambas as formas produzíamos imaginações. As telenovelas, não. Muito mais imagens prontas, restando pouco para imaginarmos. A não ser, o próximo capítulo, mas que virá pronto com suas histórias e imagens. O leitor é mais atuante (imaginante, imaginador) do que o telespectador. Este, passivamente, assiste, vê imagens. Querem um mundo passivo, posto que este não se queixa, aceita tudo como dado e acabado. A imaginação é menos domável, por isso mais livre para queixar-se, reclamar do que a incomoda. Querem um mundo cativo, a imaginação se queixa pois quer um mundo livre.

Em homenagem aos delírios infantis estimulados pelas extintas estampas do sabonete eucalol, o poeta Hélio Contreiras criou a música "Estampas Eucalol". A bela canção deveria ser mais conhecida pelo público brasileiro. Ela possui diversas gravações e nos remete à mitologia e ao sabonete com suas estampas. Mas o grande público a desconhece. Aproveito o espaço do blog para divulgar a canção e o grande intérprete e compositor Xangai. Aproveito e posto junto o poema "Queixa", que originou esta postagem, posto que fora feito para Amanda, a "minha professora", que sabe que eu "toreava o Minotauro" e que "mergulho no oceano abissal" e que ainda "luto contra os dragões", mas que  subo "o monte Olimpo" com estes desejos que tenho de um "Ícaro" que não foge do sol.
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(1) in  Samuel Gorberg : "O que são estampas eucalol" (Blog "Cultura e Conhecimento)
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Estampas Eucalol  (Hélio Contreiras)
Intérprete: Xangai

Montado no meu cavalo
Libertava prometeu
Toureava o Minotauro
Era amigo de Teseu
Viajava o mundo inteiro
Nas estampas eucalol
A sombra de um abacateiro
Ícaro fugia do sol.

Subia o monte Olimpo
Ribanceira lá do quintal
Mergulhava até Netuno
No oceano abissal
São Jorge ia prá lua
Lutar contra o dragão
São Jorge quase morria
Mas eu lhe dava a mão
E voltava trazendo a moça
Com quem ia me casar
Era minha professora
Que roubei do Rei Lear.


QUEIXA (Jorge Willian)
Quando te deitas
e teus lábios não me beijam
martírio:
meu corpo todo se queixa
onde o delírio?
onde o êxtase?
onde minha gueixa?

Rio, 26 de maio de 2011

terça-feira, 31 de maio de 2011

PUTA MINHA, NOSSA PUTA

"Choro saber que o homem sábio/
 pode morrer se não souber nadar"
          (Chico César)

quem a colocou no papel ofício
e quem a quer contê-la do frigorífico
logo ela tão libertária
ela que é de nossos ancestrais
ela que é nossa e dos que virão
mas que é elo, sem ser cadeia
nosso meio de ligação
ela que nos tem e que a possuímos
nossa regra livre
nossa liberdade convencionada
puta libertina e libertária
querem contê-la, escravizá-la
enchê-la de etiquetas,
mas quem a quer domesticar
imobilizá-la com gessos para que não vagueie
acorrentá-la para vê-la rastejar
encamizá-la para conter sua loucura
logo ela, puta louca que a todos beija
que dorme conosco antes mesmo de abrirmos a boca
ela que nos lambe sendo mortalha
quem a quer retê-la só para si
gramaticá-la para posseiros
quem a quer privatizar
ela tão comunitária
ela que é nossa, de todos nós
ela que é mátria  também
esta puta mãe saborosa
esta língua que lambuzo
que me lambe o ser
puta amada
língua minha, nossa língua
que sempre me foge
que me possui
e que tento possuí-la nessa noite
mas como nas outras
ela,a libertária, sempre escapa
ela maior que a pátria
ela maior que a boca
a lingua
puta minha, nossa puta

Rio 31/05/11  0h25m
Seguem três vídeos com canções de Caetano Veloso que se referem à lingua e suas maneiras de saboreá-la e de ser possuído por ela.
Palavra
Livros

Língua

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A VIDA NA TELEVISÃO (TEXTO E MÚSICA)

A VIDA COMO ELA (NÃO) É  

Vemos a vida não como ela é, mas como ela se mostra e quer ser, que a vida- mulher tão vaidosa, tão preocupada com a aparência- quer se mostrar: flores, bebês, luas, sois, estrelas, risos, fartura. Esconde a vida, com suas maquiagens, as marcas do tempo, as suas rugas e seus sofrimentos: mortes, carnes podres, faturas, enchentes, secas, fomes. É assim a vida em um canal de televisão. Mulher sofrida, prostituída, mas sempre a sorrir e a nos encantar. Nos apaixonamos por ela e, encantado que ficamos, deixamos a moça nos conduzir. E ela o faz bem, tão bem que nem percebemos a quem serve esta mulher. Seu cafetão não se importa com quem ela dorme, mas impõe que seja com muitos (nós todos se possível), pois assim seus lucros aumentam. A vida na televisão é bela, é fútil, é encantadora, é real, é falsa, é prostituída. Encantados, nos deliciamos com esta vida erotizada, esquecemos nossas próprias vidas, e gozamos no esquecimento. Assim é a vida como ela (não) é!   
      Jorge Willian


Tevê
(Zeca Baleiro e Kléber Albuquerque)  

Um filme na tevê
Um corpo no sofá
Um tempo pra moer
o vidro do olhar                                                                        
E a vida a passar
A vida sempre a passar
Passar

Olhando a estrela azul
azul da cor do mar
Comédia comum
ou um drama vulgar
E a vida a passar
A vida sempre a passar
Passar

Comercial de xampu
Cerveja e celular
Modelos para crer (Mentiras para crer)
e credicard
A consumir a consumir
A consumir o olhar
O olhar

Olhando a estrela azul
Um quadro a cintilar
Vendendo ilusões
a quem não pode pagar
E a vida a passar
A vida sempre a passar
Passar

domingo, 22 de maio de 2011

TRANSFORMAR NOSSA ANGÚSTIA EM AÇÃO (AMANDA GURGEL)


Na última terça-feira tive acesso a um vídeo postado no Facebook com a participação da professora Amanda Gurgel em uma audiência pública sobre educação no Rio Grande do Norte. Gostei do que ouvi no pequeno vídeo  e fiz uma introdução para apresentá-lo aqui no Amigo de Heráclito. "De repente, não mais que de repente", como nos diria o poetinha, a professora virou porta-voz das angústias sofridas pelo profissionais de educação de todo o Brasil. Porém, mais do que porta-voz das angústias, a bela professora é um exemplo de uma práxis transformadora que não se limita à reclamação nas salas dos professores e sabe que a luta é caminho  de quem quer um mundo mais justo. O exemplo da Amanda e dos demais professores do Rio Grande do Norte deveria ser seguido por todos os trabalhadores da educação, principalmente os cariocas que, neste início de ano, estão sendo atacados em mais um de seus direitos(vide nota no final desta postagem). Segue uma  entrevista de Amanda  Gurgel dada ao Portal do PSTU, partido a qual é filiada. Os grifos são meus e a foto foi retirado do  jornal Estado de São Paulo. (veja o link do Portal abaixo da entrevista)

“É necessário transformar nossa angústia em ação”

Em entrevista ao Portal, a professora e militante do PSTU, Amanda Gurgel, que calou deputados no Rio Grande do Norte em discurso durante audiência pública, falou sobre a repercussão nacional de seu vídeo e o cenário caótico da educação no estado e no Brasil.

Fabio Cortez/D.A Press
 foto: Fabio Cortez/D.A Press (in estado de São Paulo) 

• Portal: O vídeo em que você denuncia a situação precária da educação pública já superou as 100 mil visualizações no YouTube e chegou à lista brasileira dos Trending Topics, no Twitter. Como você vê toda essa repercussão? –

Amanda Gurgel:  Em primeiro lugar, é importante falar sobre a minha surpresa diante de tamanha repercussão daquelas palavras que não são só minhas, mas de toda uma categoria, não só aqui no Rio Grande do Norte, mas em todo o Brasil, como se comprova nos diversos comentários postados sobre o vídeo. Também não imaginei que as pessoas que não vivem o nosso cotidiano não conhecessem à rotina de um professor e do funcionamento de uma escola pública. Então, diante de informações tão reais, acredito que a repercussão do vídeo se deve ao fato de minha fala ter sido dirigida à Secretária de Educação, Betânia Ramalho, à promotora da educação e aos deputados, figuras que ocupam postos elevados na sociedade, a quem as pessoas geralmente não costumam se reportar, tanto por não terem oportunidade quanto por se sentirem coagidas, ou por se sentirem inferiores. Enfim, talvez pela combinação desses dois fatores: tanto pela expressão de um sentimento contido, comum a todos nós, quanto pela atitude diante de deputados.

Portal:  O vídeo foi gravado durante uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Qual era a razão da audiência? Qual o objetivo daquele debate?

Amanda Gurgel Era uma audiência pública com o tema “O cenário da educação no RN”. O objetivo era debater as questões da educação no estado, apontando alternativas para os seus problemas. A princípio, não se pretendia discutir a greve dos professores e funcionários, mas diante da nossa presença essa intenção foi rechaçada.

Portal : Como você avalia a situação da educação pública hoje no Rio Grande do Norte e no Brasil?

Amanda Gurgel:  Não existe uma palavra que melhor defina a educação aqui no estado e no Brasil do que caos. Um caos generalizado que começa na nossa formação e vai desde a estrutura precária das escolas, passando pelo caráter burocrático que ganharam as funções de coordenação pedagógica e direção, a superlotação das salas de aula, a demanda não suprida de professores chegando, finalmente, à remuneração do trabalhador que constitui a representação material do valor que é dado a nossa profissão. Mas, obviamente, todo esse caos não acontece por acaso. Há uma clara intenção da burguesia em manter a classe trabalhadora excluída dos processos que propiciem o desenvolvimento intelectual. Com isso, ela alcança dois objetivos: garante que os trabalhadores não atinjam altos níveis de cultura e pensamento crítico, conseguindo, no máximo, serem alfabetizados e aprenderem um ofício; dividir a classe trabalhadora, colocando-a em lados aparentemente opostos, como é o caso, muitas vezes, da relação entre professores e alunos ou as suas mães e os seus pais. É comum as pessoas acreditarem que greves prejudicam os alunos, quando é justamente o contrário: somente nas greves temos a oportunidade de abrir para a sociedade, os problemas que nós nos acostumamos a administrar no nosso cotidiano e que nos impedem de realizar o nosso trabalho. Somente nas greves podemos obter conquistas para a educação, pois, ainda que muitos já tenham sido envolvidos pelo discurso de que há outros mecanismos de luta que não a mobilização das massas, não é possível encontrar um caso em que nossos direitos tenham sido conquistados de outra forma. Os discursos de aparente conciliação servem apenas para mascarar ainda mais o fato de que a educação nunca foi prioridade para nenhum governo. Se não fosse assim, Dilma não teria cortado R$ 3 bilhões da educação nos primeiros dias do seu governo. Então, é necessário, em cada lugar do Brasil, transformar nossa angústia em ação. Não podemos baixar as cabeças atendendo às expectativas da burguesia. Precisamos mostrar a nossa consciência de classe e a nossa capacidade de organização.

Portal : A greve da educação no Rio Grande do Norte já atingiu mais de 90% das escolas, chegando até a 100% em regiões do interior. Na sua opinião, quais são as perspectivas da paralisação?

Amanda Gurgel:  Já contamos pouco mais de vinte dias de greve e a governadora Rosalba Ciarlini ainda não acenou com nenhuma proposta, tampouco uma que contemplasse as nossas reivindicações. Diante disso, a categoria tem reagido da melhor forma possível: lutando. A cada assembleia, recebemos informes de adesão das cidades do interior. Certamente, Rosalba e Betânia (secretária de educação) preparam alguma retaliação, mas estão enganadas se pensam que estamos para brincadeira. Não retornaremos às escolas sem o cumprimento do Plano de Cargos, Carreiras e Salários dos funcionários, a revisão do Plano dos professores, a aplicação da tabela salarial dos servidores e o pagamento de direitos atrasados. A arrecadação do Estado aumentou consideravelmente. Segundo o Dieese, só no primeiro trimestre desse ano, foram R$ 776 milhões de ICMS, o que representa R$ 110 milhões a mais do que no mesmo período do ano anterior. Além disso, de janeiro a abril, o Estado recebeu R$ 214 milhões de FUNDEB, cerca de 54 milhões a mais do que no ano anterior. Portanto, o momento não é para choradeira. O momento é para apresentação de propostas e negociação.

Portal: Você é militante do PSTU. Como aconteceu essa aproximação com o partido?

Amanda Gurgel:  Fui ativista do movimento estudantil e dirigente do Centro Acadêmico de Letras e do DCE da UFRN. Nessa época, tinha uma relação próxima com o PT, mas ao ingressar na categoria dos trabalhadores em educação, toda a imagem de movimento sindical que eu construíra ao longo da minha vida foi sumariamente desconstruída quando constatei a forma como a direção do PT/PCdoB dirigia a nossa entidade e utilizava a categoria como moeda de troca para benefícios próprios. Na segunda assembléia de que participei, já era oposição convicta. Mas, como havia outras oposições, aos poucos fui me localizando. Participei do congresso de fundação da Conlutas, passei a construir a oposição e algum tempo depois fiz uma reflexão e já não conseguia entender como eu podia ver que militantes tão obstinados dedicassem suas vidas à verdadeira defesa da classe trabalhadora, à defesa da classe a que pertenço, enquanto eu apenas trabalhava, trabalhava e cuidava da minha vida. Entendi que era minha obrigação dividir com eles, meus e minhas camaradas, essa tarefa. Por isso, eu entrei no PSTU.


                                                 ***       ***    ***
Nota: Os professores , assim como todos os funcionários públicos da cidade do Rio de Janeiro, correm o risco, caso seja aprovada na Câmara Municipal o Projeto de Lei Complementar número 41 (PLC 41), de perderem boa parte de suas aposentadorias, incluindo as atuais. O PLC 41, enviado pelo prefeito Eduardo Paes em 2010, modifica as regras da aposentadoria atacando a integralidade (direito de se aposentar com salário igual ao do último mês trabalhado) e a paridade ( direito do aposentado de ter o mesmo reajuste do servidor na ativa). Muitos profissionais acreditam que não tem nada a perder porque acham que as mudanças propostas só atingirão os futuros servidores (como se fosse pouco deixar este legado para as futuras gerações) e que eles estarão livres do prejuízo. Mas, é bom lembrar o advogado especialista em Direito Previdenciário Ivo Loiola que diz que  "o Regime Jurídico Único é um só e, como tal, não faz diferenciação entre novos e antigos servidores. Segundo o advogado, em uma denúncia do SEPE,  "é golpe dizer que o fim da integralidade e da paridade prevista na PLC 41 atingirá apenas aos próximos servidores que ingressarem na administração pública".
Além disso, sabemos que se o governo da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro conseguir a aprovação de tal disfarçada reforma previdenciária, o modelo provavelmente seguirá para ser implantado em todo o Estado e no Brasil.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Quadro Negro da Educação Brasileira (Hegemonia e Dominação)

Creio  que o vídeo que apresento abaixo sintetiza o quadro negro da Educação no Brasil. Faço apenas alguns acréscimos na intenção de repensarmos a práxis educacional que estamos produzindo hoje. Há quem serve a escola? Para que ela serve? Por que e como este turbilhão de propostas pedagógicas e o caos educacional convivem no Brasil recente? 

No Rio de Janeiro -Estado e Município- a situação que conheço de perto é muito complicada, mas sabemos que o mesmo se dá em todo o país. Aqui, o estado paga salários ainda menores do que ao que se paga no contra-cheque da professora do Rio Grande do Norte (veja o vídeo). No município carioca,além dos baixos salários, a prefeitura tenta retirar direitos dos aposentados (de hoje e de amanhã). E o mais complicado de tudo: a descrença dos educadores que preferem se acomodar. O risco da luta que os trabalhadores sempre enfrentaram passou a ser para os profissionais da Educação fluminense e carioca um grande obstáculo. E assim, fingimos por aqui que nada estamos a perder no decorrer do tempo. Mas não é verdade. Os que administram a sociedade vão ganhando força e impondo perdas para os que se acomodam. Diz a sabedoria popular que "jacaré parado vira bolsa". Educadores estão virando bolsas  baratas, sacolas. Viraram semi-escravos que trabalham em três turnos para manterem as suas famílias. E isto estar a acontecer em todo o Brasil. E isto é uma prática de qualquer que seja o partido eleito: PT, PMDB, PSDB, DEM, etc. Professores são os proletários da educação, mas a depender desses partidos e outros, nos tornaremos escravos letrados com a tarefa de continuarmos a fazer da escola um mero meio reprodutor da dominação da classe dominante do capitalismo.

O velho Althusser dizia que a escola era um Aparelho Ideológico de Estado (AIE). No sentido estrutural do termo, ele tinha uma certa razão. Até porque a escola não só disciplina como também transmite as principais ideologias para os jovens, dando quase sempre ênfase as ideologias das classes dominates. Dizia Althusser  que a escola era o principal AIE das sociedades capitalistas. Se hoje vivesse no Brasil acharia um problema a mais para refletir. Trabalhadores semi-escravos ajudando a manter a dominação capitalista. Antes, os educadores eram mantidos na classe média até para evitar que o desconforto os levasse a se posicionar do ponto de vista da massa dos trabalhadores. A classe dominante aprendeu que a proletarização ou a semi-escravidão era um caminho mais fácil para subordinar os que lidam com a educação. O ultraje sofrido desqualificou uma parte do professorado e afugentou uma outra parte. No entanto, "há aqueles que lutam uma vida, e estes são imprescindíveis " dizia Bertolt Brecht.

Apesar do reconhecimento da obra de Althusser, sabemos que  a escola não é apenas um aparelho de dominação da classe dominante. Nela há projetos diferentes em disputa. Embora pareça que não, muitos ainda se mantém imprescindíveis. São estes que oferecem uma lição diferente aos seus estudantes: a lição de que a luta dos trabalhadores é uma ação que não pode parar, pois, caso contrário, a tragédia humana imposta por aqueles que administram o caos do capitalismo será ainda mais gigantesca. Os educadores não são monolíticos e por suas cabeças transitam as diversas ideologias produzidas pelo mundo. Por isto Gramsci- o fílósofo marxista italiano-  definiu, antes mesmo  de Althusser, a escola como um Aparelho de Hegemonia, ou seja, um espaço onde as ideologias das principais classes sociais disputam corações e mentes. Assim, podemos sair da estrutura mental  pensada por Althusser e perceber que é a práxis  que fará de nossas escolas e de seus educadores um marco da escravização ou da emancipação humana. Na fala da professora Amanda do vídeo abaixo temos um exemplo de quem atua se pondo na luta pela emancipação. Já os governantes e a acomodação de parte dos educadores favorecem a velha estrutura de dominação que há muito a humanidade conhece.  


sexta-feira, 13 de maio de 2011

A VIDA É PURO ACIDENTE: OUTROS POEMAS ANTIGOS

           ACIDENTE

  O morro é morro duas vezes
  Quando pedra , quando árvore
  É acidente geográfico
  E o morro morre todos os dias
  Quando é chacina, quando é invasão
  Quando é acidente social.
  O morro geográfico desabriga nas enchentes
  O morro social que nele busca abrigo.
  Apesar da alteridade
  O acidente geográfico e social
  Continuam unidos como se um só fossem.
  E, posto que nada é permanente, morrem
  Sempre ambos os morros
  O social, por ser efêmero, se esvai rapidamente
  A vida é puro acidente.

        (Rio 09/05/2000)


        ACHO QUE DEVO FICAR CALADO

  Eu tenho muito para te falar
  Porque te amo.
  Para ser sincero, só tenho para te falar
  Que te amo,
  Mas acho que não sei falar
  O quanto e como te amo.
  Na verdade, não sei nem se devo falar
  Que te amo.
  Acho mesmo, é que devo me calar
  E, profundamente, apenas sentir
  O quanto e como te amo.

           Rio (09/05/2000)


        ZUMBI 

O coração começa a se desintegrar.
É como uma bomba, mas implodindo.
O pensamento de que você não vem
E o pensamento de que você já foi
Fazem meu coração se desintegrar.
Sinto a contagem regressiva :
Ele explodirá.
E meu ser desfalecido
A ermo  pelas ruas andará
Sem alma, sem riso, sem vida:
Corpo apenas.  
     

  
             FUTEBOL (REGRA TRÊS)

  Havia quem na arquibancada ou na geral
  gritasse pelo meu amor.
  Mas hoje ele foi para na linha de fundo
  foi chutado para o escanteio.
  Ou será que levou um carrinho e se contundiu?
  Como?! Foi parar no banco de reserva?
  Foi substituído pelo não-sei-o-quê?
  E o time? Perdeu de quatro?!
  Foi para a segunda divisão...

         (Rio 05/06/2000)


      POÉTICA (IMPOSSIBILIDADE)

  Meu coração é pequeno
  Mas todos os sentimentos cabem nele:
  Ele é maior do que o mundo.
  Os dicionários são imensos
  Possuem todas as palavras do mundo
  Mas neles não há verbo que espelhe
  Os sentimentos que trago dentro.
  É impossível expressar o que sinto,
  Mesmo assim,  nesta impossibilidade,
  Sou levado a escrever.
         (Rio, Abril de 2000)


     JULGAMENTO

Não me julgue pelas palavras
Que quase sempre são (mal)ditas
Julgue não pelo que digo
Quando deveria me calar
Mas ainda falo.
Nem pelo que faço talvez
Deverias me julgar.
O que sinto...
Isto deveria ser avaliado.

        Rio, 25/07/2000

quinta-feira, 5 de maio de 2011

TORTURAS, ASSASSINATOS: A ARTE IMITA A VIDA

Tortura não é meramente uma técnica como andam falando nos telejornais. Tortura é  um crime. Crime. Vamos repetir outra vez: um crime. É claro que este crime se utiliza de técnicas  para produzir dores e constrangimentos às suas vítimas. E é claro que o conhecimento humano é utilizado não só para coisas boas. E é claro que este conhecimento, negativo neste caso,também vem se acumulando desde tempos imemoriais.
 A tortura, além disso, consegue igualar marginais e diversas instituições que se utilizam deste crime: os comandos do tráfico, os órgãos de repressão  do Estado, as polícias e as forças armadas (como se pode assistir nos filmes "Tropa de Elite" e "Batismo de Sangue", "Pra Frente Brasil") , os sanatórios (como podemos ver no filme Bicho de Sete Cabeças), a Igreja, etc. A tortura se utiliza inclusive do conhecimento da medicina. É sabido que as torturas realizadas por militares brasileiros na ditadura pós-64 (cujo métodos foram exportados para países latino-americanos) eram assistidas por médicos. O papel destes era averiguar se o preso ainda tinha condições ou não de suportar mais torturas. Além do cinema isto pode ser pesquisado nos livros "Brasil Nunca Mais", "A Internacional Capitalista", "1964, A Conquista do Estado", entre outros.

Mas a ditadura brasileira não está sozinha nesta ilegalidade e nem na cultura. Guantánamo, prisão política e repleta de ilegalidades, é um dos maiores exemplos de que o Estados Unidos da América, que diz manter a democraciao, utiliza-se da tortura como método de repressão. Sabemos que o atual presidente dos EUA tinha como proposta, em sua campanha política, extinguir Guantánamo. Mudou de opínião após a eleição e permite que o uso da tortura ainda seja utilizado. Não é atoa que a série "24 Horas" fez tanto sucesso por lá. O herói, Jack Bauer era um agente da CIA que tinha como um dos seus métodos o uso da tortura como desculpa para defender o país e lutar contra o terrorismo.


Mas a ilegalidade não está presente apenas na existência de uma prisão na qual os presos não tem direitos a advogados e são torturados, está também presente na utilização de assassinatos de líderes de movimentos sociais ou líderes de países inimigos, como atentaram diversas vezes contra a vida de Fidel Castro. Não duvide da veracidade desta informação. Documentos publicados pelos poderes americanos confirmam o que foi dito há muito por pesquisadores e grupos de esquerda. O próprio livro "Batismo de Sangue" trata do assunto.  Hoje é possível assistir na produção hollywoodiana, a começar pela "Identidade Bourne", o treinamento de homens que passam a ter como tarefa de Estado assassinar os chamados inimigos. É a velha "licença para matar". A arte imita a vida: a tragédia real, que antes ficava escondida, agora vem a tona e mostra que o cinema é apenas seu reflexo. Isto só é possível  devido ao aniquilamento moral do povo estadunidense. Para muitos deles, o domínio e o nacionalismo são hoje muito mais importante do que o estado de direito, a democracia e o humanismo. O capitalismo decadente reflete em uma sociedade que aceita até a tortura e o assassinato como políticas de Estado. É, amigo, tempos bicudos...

A arte deveria, segundo o filósofo Adorno, denunciar a tragédia humana em um mundo em que o nazismo já produziu o sofrimento do holocausto. Ainda segundo ele, não caberia à arte, em um mundo que sofreu as tragédias da primeira metade do século XX, buscar o prazer. Caberia ao artista denunciar e não permitir que o prazer de uma arte alienada nos ajudasse a fugir ainda mais da realidade. Acho que é assim que percebi as produções, entre outras, dos filmes "Pra Frente Brasil" "A Caminho de Guantánamo","Batismo de Sangue",  e do livro "Dia de Ângelo". No caso de "A Identidade Bouner", e de muitas outras produções holywoodianas, mesmo a denúncia do assassinato me parecem meras diversões, Já no caso da série "24 horas" à diversão soma-se a defesa ideológica da tortura como método contra os inimigos. Tempos bicudos e cinematográficos, amigo.
       "Em seus papiros, Papillon já me dizia/ que na tortura toda carne trai..."

Em Tempo: recentemente, com a vinda de Obama, o Estado brasileiro produziu diversos presos políticos que, comprovadamente através de filmagens, faziam um protesto pacífico contra o dirigente da maior arma de guerras do mundo. Se fossem presos no mundo árabe, os manifestantes cariocas estariam, provavelmente, sendo torturadoe em Guantánamo. Há um abaixo-assinado para arquivamento do processo criado por estas prisões ilegais o endereço segue abaixo:

 http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoAssinar.aspx?pi=P2011N8248

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Segue um trecho do texto publicado no portal Carta Maior (ver endereço na secção "Vale a Pena Consultar" no lado esquerdo deste blog):

Tribunal de Justiça gaúcho condenou Estado do Rio Grande do Sul ao pagamento de R$ 200 mil a torturado durante a ditadura militar. Em sua sentença, o desembargador Jorge Luiz Lopes do Canto (foto) considerou que crime de tortura não prescreve. "A dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, e a tortura o mais expressivo atentado a esse pilar da República, de sorte que reconhecer imprescritibilidade dessa lesão é uma das formas de dar efetividade à missão de um Estado Democrático de Direito, reparando odiosas desumanidades praticadas na época em que o país convivia com um governo autoritário e a supressão de liberdades individuais consagradas", disse ele em sua decisão.
      LEIA MAIS:  http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17733
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sexta-feira, 29 de abril de 2011

MAL NECESSÁRIO: O MINISTRO E A CANÇÃO

Duas versões sobre o mal necessário: a primeira na fala de um dos ministro  do Supremo Tribunal Federal (STF) defendendo a ditadura imposta aos brasileiro no dia 31 de Março de 1964. O ministro é um membro da família do ex-presidente Fernando Collor de Mello, aquele que  participou da ARENA, o partido que sustentava a ditadura. Collor é hoje senador pelo estado de Alagoas, mas em 1990, quando era presidente da república, indicou o seu primo Marco Aurélio Mendes de Faria Mello  para ser ministro do Supremo Tribunal. Sua família compartilha do poder pelo menos desde a época de Getúlio com o senador Lindolfo Collor, avô do atual  senador e que foi ministro do trabalho na ditadura de Vargas.

A defesa do que o ministro Marco Aurélio Mello chamou de "mal necessário" nada mais é do que a defesa de um anti-comunismo tão comum aos totalitários de direita na suas pretensões de defender o empresariado. O "mau necessário" foi para os trabalhadores apenas um mal. Necessário foi (e pode vir a ser) para os grupos que dominavam e dominam o Brasil. Qualificar de necessário o mal que foi a ditadura é, na verdade, dizer que os torturadores e exterminadores da época agiram para o bem. Mas bem de quem? De quem tem bens a proteger, é claro. Como representantes de um Estado empresarial não é difícil compreender as posições a favor dos dominantes nas votações de diversos membros do supremo e, em particular, do ministro Mello.
Mas nem todo mal necessário é tão mesquinho como parece ser aqueles que ainda defendem a ditadura de 1964. A uma outra versão do "Mal Necessário" que é a música  gravada por Ney Matogrosso e cujo título foi dado por ele. A canção foi composta por Mauro Kwitko, e disse Ney, em uma entrevista na antiga Rádio Nacional, que a canção foi feita pelo compositor quando este estava dormindo. Repare que a poesia é muito boa, a canção é linda e a interpretação maravilhosa. O arranjo é genial, inclusive o belo som da guitarra.  Tudo isso foi feito em 1979, ainda nos tempos da ditadura, a mesma que se incomodava com os rebolados de Caetano e do cantor do Secos e Molhados.

Deve ter gente no Supremo, assim como no Congresso, achando que o seu mal necessário não foi tão eficaz, que apesar de ter exterminado os comunistas deveriam ter controlado os homossexuais que também queriam e ainda querem, segundo dizem alguns desvairados, acabar com a sagrada  família brasileira. E fingem não perceber que a exploração salarial empurrou pais e mães para o mercado de trabalho e as crianças para as babás eletrônicas, as ruas e as internets da vida. Multiplicar e baratear a mão de obra, esfacelar a família, culpabilizar comunistas e homossexuais talvez sejam posições defendidas no futuro por algum Ministro  como um mal necessário. 

Tende piedade deles... eles sabem o mal que fizeram e fazem, mas ainda cantam na madrugada: "eu sou o mau...mau mesmo...todo mundo aqui vai dançar..."

        O mal (des)necessário do Ministro e o belo Mal Necessário da canção:
               

quarta-feira, 20 de abril de 2011

GRAMÁTICAS


                      Titãs : Rock Americano

a músiva de joão bosco
que brinca com as palavras
refazendo sonoridades
os versos de drummond
seriamente brincando
com os significados dos significantes
o rock americano da línguística titânica
o português "errado" dos turistas
tão seriamente confundindo
o "sexo" das palavras
nos pondo a rir
o balbuciar infantil
criando palavras novas
e significados novos
para coisas e palavras velhas
e o menino na rua
menino da rua,
menino de rua
brincando com a vida
vivendo tão seriamente a sua gramática
equilibrando-se em cima
da palavra agora
chutando a palavra medo
pulando a palavra infância
preso nas palavras fome e prisão
o menino na/da/de  rua
recria a língua na sua insignificância:
"perdeu, sou pica, mermão!
e se peidá toma chumbu",
"caralhu, fudeu!"
"vaza, porra!
vô te esculachá"
traduções?
vida, morte, sobrevida
sobrevivência, vingança
resistência, descaso
ausência, presença...
talvez...

 Rio, 15/02/1987 e 20/04/2011 (JWCL)


sábado, 16 de abril de 2011

E. M. Tasso da Silveira - Memórias (Rodrigo Fernandes)

Publico desta vez um texto enviado pelo amigo Rodrigo Fernandes, responsável pelo belo blog "Ao Vinagrete". Rodrigo é um ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira e hoje o encontrei em um ato organizado pelos ex-alunos daquela escola. No ato foi fácil perceber porque aquele estabelecimento de ensino é motivo de orgulho: é uma grande família que, apesar do afastamento momentâneo de parte dos seus membros, mantem o orgulho de pertencimento àquela instituição. O encontro foi uma verdadeira catarse para aqueles que nesses últimos dias estão sofrendo por muitos motivos, onde não se pode deixar de citar o ataque à historia/memória individual de cada um que forma aquela família, da qual faço parte desde 1992, ano em que comecei a trabalhar na Tasso e pude conviver com Valdemar, Claudio , Marina e outros amigos. Segue o texto, espero que gostem.


E. M. Tasso da Silveira - Memórias   (Rodrigo Fernandes) 

Eu sou um pobre homem da Póvoa da Varzim...
(Eça de Queiroz: Carta a Pinheiro Chagas)

Eu sou um pobre rapaz do Jardim Novo do Realengo. Eu era diferente e tive sorte, pura questão de causa e consequência. Diferente pois realmente adorava ir para a escola. Sorte porque minha turma era a melhor de todo o bairro, melhor do mundo. É claro, of course, que a professora de inglês, ainda miúda e bonita em minha memória, era um incentivo e tanto, embora eu nem soubesse muito ao certo por quê, mas não me engano: eu estudava na Escola Municipal Tasso da Silveira.

Ela ficava ali, sólida e tranquila, logo atrás da rua Piraquara, que a gente chamava de avenida pela compridez, entre o conjunto de apartamentos da aeronáutica, onde todo mundo queria morar por que lá tinha piscina, e o terreno da fábrica de vinagre abandonada, cujo o único morador era um cavalo velho e doente. Um terreno imenso, hoje transformado em um conjunto grandioso, onde provavelmente muita gente também quer morar. Quando a quadra estava ocupada pelos alunos mais marmanjos, o que era quase sempre, a gente ia parar na pracinha da Nogueira de Sá (essa avenida de fato) que ainda deve estar lá. No São Luiz, campo grande, quase todo gramado às margens do Rio que corta todo Realengo, da Pedra Branca à Vila Militar e que há tempos, dizem, era repleto de cascudos gordos. Ou na pior das hipóteses parávamos no Alvorada, um rala-côco de primeira, ou última categoria, a gosto do freguês. Essas eram as fronteiras de uma área nobilíssima dentro da imensidão do Realengo, só muito ao longe o morro, hoje comunidade, do Cosme e Damião impunha respeito.

Estudei lá de 1988 a 1993, o antigo ginásio e primário (o nome era esse mesmo?) e tenho fé: não há exagero em afirmar que naquela época, e não se passou tanto tempo assim, a Tasso era a melhor escola pública da região. Bem cotada em qualquer ranking das melhores do Rio. Dizer que estudava lá era um orgulho besta, mas real. Eram comuns as filas dos pais na porta da escola em época de matrícula, eram dias e noites ao relento esperando alguma vaga milagrosa, mas valia à pena. Minha mãe também passou pelo calvário, mas não rolou e só entrei graças a alguma conexão obscura de uma tia com um funcionário do baixo clero da secretaria de educação.

Não era uma escola fácil para jovens homens. Fila, forma, cantar o hino, saudar a bandeira, marchar no 7 de setembro. Uniforme, impecável. Presença dos pais. Tudo isso era cobrado do aluno. Então de onde vinha a alegria de acordar cedíssimo (o horário também era militar) e caminhar um bom par de quilômetros para passar por isso? Confesso que não era um aluno diferenciado, não frequentava os seres abissais do fundo da sala, mas estava muito longe de ser um modelo. Porém sabia – ou melhor, intuía – que estudava numa escola diferenciada. Grandes dias, grandes professores. Ok, havia bullying, sim (cheguei a levar uma bolacha ou duas) e a paisagem em volta da escola mudou um bocado, quase nunca para melhor. Aqui os morros trocando as encostas verdes por barracos, acolá os campos de várzea virando condomínios que tentavam tolamente fugir da realidade. E a Tasso no meio disso tudo, resistindo. E, justiça seja feita, exceto um caso lendário, jamais comprovado e muito provavelmente inventado de um aluno que um dia fora armado para impressionar os colegas, nunca vi nada demais acontecer por ali. Coisas – da pouca-vergonha à alguma violência juvenil – que aconteciam em outras escolas nos chegavam apenas rumorejantes e eram, de fato, para nós, novidades escandalosas. 

Na boa? Descontadas as devidas proporções, a Tasso da Silveira foi o que eu poderia chamar de minha Macondo. Grandes amigos, grandes memórias. É óbvio que as coisas não são como antes e seria cretinice esperar o contrário, mas se a escola perdeu um muito do seu prestígio nos últimos anos, havia uma série de ideias sérias e inteligentes em curso para reverter tal situação (conheci poucos professores tão íntimos de suas escolas). Isso até a última quinta-feira. Liguei para um velho mestre e conversamos o de sempre: os desmandos do governo, a política internacional, o futebol. Não tocamos n’ O Assunto e era como se nada tivesse acontecido, simplesmente porque tudo era impossível e irreal. É difícil entender como os corredores onde aprontei e aprendi tanto por tanto tempo tenham virado um cenário de filme de terror. A tragédia definitivamente não combina com aquela escola. Nem a tragédia, nem malucos suicídas, nem paredes lavadas de sangue e muito menos alunos transformados em alvos móveis. Isso não combina nem com a Tasso da Silveira da minha memória, nem com a real, da qual tenho orgulho e sou honestamente grato. Eu e muita gente, tenho certeza.