Amigos e/ou Leitores

terça-feira, 2 de maio de 2017

ULTRAVIOLENTOS

Os raios violetas
são ultraviolentos
mas são como alguns homens, 
os violentos,
os que violam
as rosas, os lírios, as violetas.
Os raios violetas
já foram menos violentos
refletem a violência
que recebe toda a natureza.
Os homens não violetas
são homens sem violas
e sem rosas e lírios,
são, porém, homens verdes
homens dólares, cifrões
homens lobos das violetas
homens lobos dos homens violetas
homens ultraviolentos.
Rio, 1 de novembro de 2016
Jorge Willian

sábado, 18 de março de 2017

Cento e Uma Hóstias, Uma Cor

Costa Barros destino 
Destino Cidade de Deus
Costa Barros, cento e um tiros
Divididos para cinco corpos
Negros ceiando,
Negros lanchando,
Negros lanchados.
Carro com cinco negros
Cinco suspeitos são
Jovens negros
Jovens suspeitos são.
Cento e um tiros
Cinco corpos negros
Cinco cachorros quentes?
Cinco hambúrgueres?
Havia coca-cola?
Refrigerante de cor preta?
As armas das cento e uma balas
Eram negras?
Os dedos dos policiais,
Que cores tinham?
Costa Barros eram cinco,
Sete na Cidade de Deus.
Contaram os tiros?
Não se sabe?!
Mas a cor era a mesma
A juventude era presente
O preconceito também?
Cento e um tiros?
Sete já bastava.
Mas o destino?
Rio, quarenta e cinco graus
Cinco corpos
Sete corpos
Doze negros na santa ceia.
Cento e uma hóstias.
Rio, 27 de novembro de 2016
Jorge Willian

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

VERMELHO

Brasa
braseiro
brasil
Quem diz que não é quente
quem diz que vermelho não é
nunca viu
uma fogueira
nunca assou
batata doce
não queimou
o pé na brasa
não olhou bem
a brasa
o braseiro
o pau-brasil
o Brasil
(Jorge Willian)
Rio, 8 de setembro de 2016
3h31m

domingo, 15 de janeiro de 2017

Agosto


E a vida se derreteu
Metais também, e pedras
Tudo se fundiu 
Vidas e votos humanos
E outros corpos
Desintegraram-se
Em segundos
Em minutos
Em anos
Nada que existia
Era o que foi
Só restaram
O avião
O piloto
A vitória do projeto
E a derrota da humanidade
E foi só apertar o botão
Nada mais além
Restou
E não era onze de setembro
Jorge Willian
Rio, 10 de Janeiro de 2017
04h26m


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

domingo, 7 de agosto de 2016

DA AMIZADE ( O AMIGO, AMIGA)

Um poema para uma amiga com o qual compartilho o viver há mais de 20 anos, antes mesmos dela abrir seus olhos e marcar minha memória com o seu primeiro olhar. Amiga que antes mesmos de me ver ou ser vista por mim já me envolvia de sentimentos e emoções. E que um pouco mais tarde, que com seus olhinhos de criança compartilhou algumas leituras de livros e letrinhas de canções e que, ainda há poucos dias, pude dividir com ela uns trechos do texto O Amigo, de Giorgio Agamben, fonte inspiradora do poema. Este poema poderia ser dedicado para muitos amigos que compartilham também seus olhares e o resto de suas existências comigo, mas é para Lívia Maíra, cujo o olhar carrego comigo, que pensei, ao escrever o trecho final, que dedico o poema. O amigo, amiga.

Compartilhamos. Não compartilhamos.
Amigos assim somos
assim, amigos nos constituímos.
Não porque compartilhamos os pães,
embora o façamos.
Nem tão pouco porque compartilhamos os lares.

Menos ainda, pela partilha das festas e seus salões
e seus risos
gargalhadas
e lágrimas.
Danças, canções, brindes
comemoram a amizade,
mas não produzem amigos.

Ou dos cemitérios e suas dores
suas lágrimas
suas mágoas.
seus gritos
e risos.
Cortejos, sentinelas não nos fazem
nem velam ou encerram amigos.

Amiga, amigos somos
pois compartilhamos a existência.
E só somos, depois de amigos,
nesta existência
onde dois são um
onde um é dois

Somos amigos, amiga,
na divisão da mesma existência
na multiplicação do mesmo existir.
Viver existindo em dois
existir vivendo em dois
dois que é um
um que são dois.

Existir, amiga, em ti
viver em mim.
Viver em ti
existir em mim.

Moeda que respira, age, sente
faces somos desta moeda
que circula,
rola,
para
e se move novamente.

Somos amigos
no compartilhamento
da moeda preciosa.
Somos duas caras
sem coroa
Sem preço.
Compartilhamos o apreço
e só assim
apenas assim
somos.

Jorge Willian

Rio, 23 e 26 de julho de 2016

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

VIOLÊNCIAS, UMA REFLEXÃO SOBRE UM MORTO E O ESTADO









Ao caminhar a procura de uma farmácia neste domingo em Realengo, o bairro da zona oeste carioca imortalizado na famosa canção de Gilberto Gil, não só encontrei o que procurava como tive que passar por um corpo coberto por um pano e sujo de sangue. E na porta da farmácia. Próximo, com ar sofrido, um conhecido me disse que o corpo era de seu sobrinho. Era o seu sobrinho morto. Do outro lado da rua uma escola pública municipal e na mesma calçada da farmácia, a menos de vinte metros, um bar repleto de pessoas amortecidas, mas muito falantes e risonhas em suas mesas onde copos e cervejas balançavam. O contraste entre o rosto sofrido do conhecido e os rostos dos cervejeiros ainda me faze pensar sobre algumas canções, duas em especial: De Frente Pro Crime onde o poeta Aldir Blanc, com a melodia de João Bosco, cria uma crônica tão familiar a todos que passam por este tipo de violência e a outra é uma canção onde Chico Buarque nos diz que a dor da gente não sai no jornal.  

Realmente, a dor do meu conhecido não saiu no jornal e muito menos  pareceu ter chegado ao bar vizinho. Pensei na hora que além da violência física contra o falecido, muitas outras violências se apresentavam em tão pouco espaço, inclusive a violência de tornar invisível as dores, os sofrimentos dos familiares. Tentei compreender os donos dos rostos presente no bar como quem já se acostumou com tantas violências diárias nos jornais, nos televisores, nas suas salas, nas suas camas, nas suas ruas e nos seus locais de trabalho. Quem tanto vê e sofre e faz violências se acostuma de tal forma que parece nada sentir quando um corpo estirado, sujo de sangue, coberto por um pano e vigiado por um tio está quase ao lado dos pés. Um morto qualquer e seu vigia  são invisíveis para quase todos, da mesma forma como tornamos invisíveis o trabalhador faminto ou desempregado, o negro humilhado, a mulher assediada e subjulgada, a criança espancada e o preso torturado e como animal tratado.

Mas seria a violência algo restrito aos bairros pobres das cidades brasileiras? O uso da violência bruta e simbólica é algo que acontece apenas nas periferias das cidades de países da periferia do mundo? Ou será que a violência é algo inerente à sociedade em que vivemos? Um elemento comum, familiar, do sistema social em que estamos, tal capitalismo? É algo marginal ou central desse sistema? As respostas possíveis nos permitem repensar muitas coisas que ouvimos e lemos por aí. Podemos, por exemplo, repensar se são as revoluções que são violentas ou seria manter tudo como está a violência maior?

Qualquer sociedade onde uma parte de seus membros se apodera das riquezas criadas por outros não pode existir sem a violência. A própria fundação, o surgimento, de uma sociedade onde uma parte se apodera e explora a outra parte que trabalha não pode se dar sem a violência. Desapropriar os antigos proprietários de algo que era coletivo não é possível sem que se tivesse imposto essa desapropriação. Qualquer modo de produção não primitivo até hoje existente só se constitui tendo como base a violência. Sim, é isto mesmo, a violência também é estruturante das sociedades de classes. E isto não é uma novidade para o materialismo histórico. Marx, no capítulo XXIV de O Capital, deixa claro como foi que a Inglaterra, um dos berços do capitalismo, fez com os seus camponeses para que estes, desapropriados de quase tudo, tivessem que ir para as cidades em busca de suas sobrevivências. Nas cidades serviram às fábricas como proletários, os trabalhadores sem nenhum meio de produção que só possuem suas proles e suas forças de trabalho. Sabemos que homens, mulheres e crianças tiveram suas vidas consumidas rapidamente pelos trabalhos nas fábricas da mesma forma como estas consumiam também carvão, lenha, árvores. Assim, como insumo a ser consumidos pela fábrica foram tratados o carvão e a força de trabalho. Consumidos criam riquezas para os donos das fábricas.

No Brasil e em outros países dominados pelo imperialismo europeu sabemos que a violência também serviu à formação do capitalismo na Europa. A mão de obra escrava por aqui serviu de formas diversas à acumulação europeia. Vejamos duas: escravo-mercadoria trazidos à força da África e vendidos aqui dando lucros aos mercadores europeus e a seus acionistas (entre eles o pai do liberalismo, Jonh Locke) e o escravo força de trabalho produzindo mercadorias- como açúcar, café, algodão- que vendidas também para os mercadores europeus eram por estes revendidas permitindo lucros ainda maiores para eles e impostos para as metrópoles.

E a violência contra os trabalhadores do capitalismo ou do escravismo colonial não  se limitava à exploração do trabalho. Quantas escravas não tiveram que deitar com seus senhores sendo violentadas em suas intimidades? Quantas operárias não foram e são assediadas para manterem seus empregos? Quantos escravos e escravas não sofreram espancamentos e assassinatos feitos pelas mãos dos senhores ou de seus capatazes e capitães do mato? E quantos proletários e proletárias não sofrem violência física onde os atuais capatazes (policiais, jagunços, falsos milicianos...) usam da força bruta para agredirem os que lutam por uma vida melhor ou que não aceitam os desmandos dos patrões?

A violência é inerente às sociedades de classes. A classe exploradora, que é numericamente minoritária, tem a necessidade, para  manter a exploração contra a maioria, de se fazer também como classe dominante. E dominar é controlar as ações dos outros. E se controla, se domina, com o uso tanto da força bruta quanto da força ideológica. Daí a necessidade do grupo dominante de ter o controle de quem usa a força física (o grupo armado, militares e policiais) e de quem cria a lei (no mundo atual: vereadores, deputados, senadores), ou seja, a classe dominante, para controlar os trabalhadores, precisa ter o controle do Estado, a instituição que cria as leis e as impõe. Não tem como ter uma sociedade sem violência enquanto houver classe exploradora e Estado. 

Há uma controvérsia entre marxistas e anarquistas sobre a construção de uma nova sociedade sem exploração e sem violência em relação ao Estado. Alguns anarquistas defendem a possibilidade de construção em um futuro de uma sociedade sem classe social e sem Estado a partir de uma revolução que pusesse fim aos dois elementos de uma vez. O materialismo histórico não acha que isso seja possível, defende que a visão anarquista é utópica. Para Marx e Engels, antes do fim total do Estado e para a criação do comunismo, algo muito parecido com o que pretendem os anarquistas, é necessário primeiro conquistar o Estado para controlar e por fim à burguesia. O Estado criado, o Estado proletário, não seria o que hoje conhecemos. Marx chegou a dizer que o que foi construído pela Comuna de Paris era um exemplo do que ele chamou de ditadura do proletariado, ou seja, uma ditadura contra a burguesia realizada pelos proletários que, na Comuna, deliberavam sobre tudo, inclusive fazendo com que os que deliberassem algo (o poder legislativo atual) fosse os mesmos a executar o decidido. Os anarquistas criticam a visão marxista dizendo , entre outras coisas, que se há Estado, há opressão. Mas isto é algo que os marxistas até concordam. O problema é se a opressão é contra ou a favor dos trabalhadores e trabalhadoras. Até porque em nenhuma sociedade onde estes venham a fazer uma revolução, a burguesia e suas formas de pensar (explorar, ganhar sempre, lucrar às custas de outros, violentar, etc) irá realmente desaparecer como em um passo de mágica. Sem contar as possíveis retaliações das sociedades vizinhas tentando destruir o que estaria sendo construído, como ocorreu na Rússia, onde tropas estrangeiras e mercenários eram pagos para invadir e derrotar a Revolução que em 2017 fará um século. O fim do Estado, mesmo deste Estado Proletário, só seria possível após o fim das classes sociais e de suas formas atuais de pensar e agir. Isto requer o desenvolvimento de novas relações sociais e da formação (educação) de um novo tipo de indivíduos. Pessoas que seriam educadas a compartilhar riquezas e decisões, economia e poder. Esse novo homem (e mulheres, posto que, novamente, não se trata de gênero mas da humanidade) não surgiria da noite para o dia e nem é possível que surja hoje em grande maioria. Vivemos, não podemos esquecer, em uma sociedade onde a maioria é violentada todos os dias mesmo sem perceber, a violência diária banalizada é invisível aos olhares não atentos.

A violência, portanto é inerente às sociedades de classes, inclusive à  capitalista. Esta surgiu e se mantem se utilizando de diversas formas de violências. Todas as vezes que a luta de classes põe em risco o sistema capitalista, ele rapidinho mostra, com seus braços armados, a violência bruta. Em outros lugares e aqui, na periferia da Cidade Maravilhosa, a violência se faz principalmente contra os filhos dos proletários e os que são marginalizados. A começar pelos hospitais e escolas, mas também passando pela violência dos policiais e grupos marginais. Vira-e-mexe é um corpo jovem que cai ou nas drogas (mais uma mercadoria valorizada por esse modo de produção não é de hoje) ou no chão ensanguentado. E os (tele)jornais ou nada falam ou até debocham dos mortos formatando corações e mentes. No dia-a-dia, o uso da violência simbólica, parte da dominação ideológica, se faz constante   de tal forma que a banalização dos atos violentos nos faze aceitar que tornar invisível um corpo violentado e o tio entristecido que o vigia é algo normal. Quando não fazem pior, ridicularizam o morto e seus familiares. Mas ridículo mesmo é quem acha que manter esta sociedade não é a pior forma de violência.

Por Jorge Willian 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O TEMPO, A UTOPIA E O SOCIALISMO

jorge willian

Passado, presente e futuro. Assim dividimos o tempo, assim o percebemos. Temos o hábito de analisar, de subdividir as coisas, mesmo que para isso seja preciso transformar as coisas em outras. Criamos, por exemplo, o tempo futuro, aquele que nunca é, que sempre será se nunca for. Sentimos o tempo passado como se ele estivesse morto e não atualizado em nós, no hoje, no presente. Assim achamos que podemos lidar com a vida: analisando o seu devir, mas esquecendo, às vezes, de sintetizá-lo simplesmente vivendo a vida como uma só. Por isso esquecemos que só há um tempo: o tempo de viver. E este é o tempo presente, aquele que está agora. O resto deve ser mero engano de nossas mentes analíticas. Só assim nós humanos, criadores de Chronus, entre outras divindades, podemos viver os três tempos que analiticamente inventamos: o tempo passado que se atualiza, o tempo futuro que sempre estamos a esperar e o tempo presente, o que sempre se apresenta. É este último, o presente, o tempo que desfaz e (re)cria novas utopias.


É no presente que tudo está a se transformar (com a nossa intervenção ou não). É nele que a vida se atualiza. O que seria do tal passado se nossas mentes não atualizassem o que vivemos? A memória e a história só são possíveis por essas atualizações que fazemos do que foi vivido. Nosso cérebro humano produziu a capacidade de relembrar e, ao fazê-lo, atualiza o que chamamos de passado. Este, portanto, nunca é ele mesmo, ele é sempre o que fazemos dele no presente. E aqui temos a beleza e o perigo. Podemos, por exemplo, reatualizar Heidegger nas universidades (e isto, reviver o pensamento de alguém, parece belo), mas as atualizações o transformam, normalmente, em um filósofo que não teve engajamento político (seu apoio ao nazismo) e, assim, produzimos meias verdades ou belas mentiras. O mesmo se dá com algumas releituras atuais  de Nietzsche, o filósofo da moda, quando  esquecem do papel político elitista e, em certos casos, reacionário dos pensamentos deste autor.

É no presente também que esperamos os próximos acontecimentos e chamamos a isso de futuro. Mas é no devir que os acontecimentos se realizam. Futuro parece, pois, ser um esperar que aconteça algo. Quando, penso eu, é na ação cotidiana, no agir no presente que possibilitamos ou não que algo se realize. É o presente, que atualiza o passado, que possibilita o vir-a-ser. As utopias, desejos de quase-não-possibilidades, são classificadas desta forma por acharmos que são quimeras, que são impossibilidades, que não são acontecimentos próximos. Mas quem diria a Leonardo da Vinci que o homem não poderia voar? Para ele era um acontecimento provável, para os seus contemporâneos era mera alucinação ("utopia"), mas atualizamos recentemente os projetos de Da Vinci e, como bem lembrou Chico Buarque em uma de suas canções,  "O homem da Gávea criou asas". E as asas deltas são exemplos  de utopia realizada. É exemplo também de que a vida é uma só e só tem um tempo, o tempo de viver. E o futuro, por que podemos pensá-lo sem que seja nunca vivido? É porque podemos sonhar, ou melhor, projetar. Mas que fique claro que projetar é uma ação que realizamos aqui e agora.

Nos Séculos XVIII, muitas projeções foram feitas sobre o que poderia acontecer com a humanidade. Em 1798 Thomas Malthus nos assombrou com a hipótese de que a catástrofe da fome era iminente, pois a população humana, segundo ele, crescia de forma muito mais rápida do que a produção de alimentos. A projeção de Malthus tinha o equívoco de acreditar na incapacidade do homem de potencializar seus meios de produção. Se a projeção malthusiana não se deu, ela pelo menos nos obrigou a repensar tanto o planejamento demográfico quanto o da produção da riqueza.

Outros pensadores, já no século seguinte, perceberam a necessidade de mudanças na sociedade. Estava claro que mais do que a relação população/produção de riqueza o problema estava na distribuição das riquezas produzidas. Diversos grupos tentaram produzir dentro da própria sociedade capitalista formas de convivência mais igualitária. O conjunto dessas práticas e os pensamentos criados em busca da igualdade deram origem ao que foi chamado de socialismo. Estas buscas socialistas, porém, são chamadas de utópicas porque além de não bulir de fato com os status do capitalismo acreditavam na possibilidade de coexistir com este. Uma visão crítica destas formas de socialismo foi apresentada em diversos textos por Marx e Engels.  Mas, de certa forma, estes tentavam na época atualizar o pensamento de Thomas Morus (autor de "Utopia") a partir de releitura crítica do conhecimento acumulado até aquela época. E como ciência é sinônimo de conhecimento, Engels adotou para um dos seus livros o título "Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico". Era, portanto, uma forma de atualizar as projeções. Estas, para o autor, possibilitariam ações em busca de um vir-a-ser que modificasse aquele momento histórico.

No século XX, algumas utopias se realizaram: a luta política dos trabalhadores, muitas baseadas em pensamentos ditos utópicos, conquistou direitos sociais dentro do próprio capitalismo e em alguns lugares conquistou o próprio Estado, principalmente após as crises do momento imperialista desse sistema, o que ficou claro com as grandes guerras. Foi na primeira delas (1914-1918) que surge o primeiro estado chamado de socialista. Apesar dos equívocos ditatoriais impostos por Stalin, a Revolução Russa de 1917 ofereceu ao mundo uma demonstração de que também é passageiro um sistema social baseado na desigualdade a ponto de gerar uma guerra mundial. E isto ficou mais claro ainda após o sistema capitalista gestar as ditaduras totalitárias de Mussolini, Franco e Hitler (este com o apoio de Heidegger), além, é claro, da Segunda Guerra. Logo após o fim desta guerra, em 1949, a China faz a sua revolução socialista também se baseando em políticas ditatoriais. Dez anos depois, é a vez de Cuba. Esta última, apesar dos limites de ser uma ilha não capitalista cercada de Estados Unidos por  todos os "lados", tem uma tonalidade mais democrática, mas uma tonalidade que precisa também ser reatualizada. Não no sentido de uma volta ao passado como se deu com extinta União Soviética, mas de busca de atualização da utopia igualitária também do poder político.

Como já foi dito, o século XX realizou algumas das utopias e só não realizou mais porque o combate a elas foi muito forte. Usou-se desde as ditaduras (vide os casos do Brasil e do resto da América Latina) até a força das ideias religiosas (vide o combate do Vaticano aos teólogos que se aproximavam das utopias, como fizeram com os que defendiam "Teologia da Libertação"). Vide também os assassinatos de líderes dos movimentos populares.  Neste combate, não  esqueceram do circo das redes de televisão e de outras formas de "arte". Mas, não podemos deixar de lembrar Heráclito, o filósofo que nos mostrou que nada permanece sem transformação. 

O século XXI já está no sua segunda década e está muito claro que o jogo de "banco monopólio" realizado pelas grandes corporações  capitalistas tem gerado cada vez mais crises e guerras. Só estas últimas permitem que o império estadunidense não caia podre de uma vez. E a crise deste império afoga todo o sistema por ele hegemonizado. São dólares produzidos de forma artificial e lucros gigantescos de uma minoria patrocinada pelo Estado tanto no "império", quanto nas "colônias". Como contrapartida exigem mais sacrifício dos trabalhadores e, agora, tanto faz que sejam da Tunísia ou da Bélgica, da Espanha, ou da Grécia, dos EUA ou de Portugal, do Brasil ou da Rússia. A fome de lucros ameaça empregos e aposentadorias. Tudo isso, é claro, aumenta as desigualdades.  

No tempo futuro, aquele que sempre está para acontecer, as utopias parecem impossíveis e a catástrofe humana parece iminente. Mas é no tempo presente que produzimos as possibilidades. Nele podemos atualizar as ideias surgidas no século XIX e fazer melhor do que fizemos no século XX. As asas deltas foram criadas e precisam de aperfeiçoamento, principalmente no que diz respeito à questão política da democracia. Democracia, mas socialista (ou não seria uma utopia igualitária), pois a que temos- consentida pela sociedade empresarial- não passa de engodo.  Se vivo fosse,Salvador Allende, o presidente morto no golpe militar do Chile, saberia a que estou me referindo em seu 11 de setembro de 1973.
(Adaptação, para o Faísca Vermelha, do texto  O Tempo e a Utopia  publicado anteriormente pelo autor  no blog Amigo de Heráclito)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

DA CONTRADIÇÃO

O PENSAMENTO DIALÉTICO NÃO TRATA APENAS DA POSSIBILIDADE DA CONTRADIÇÃO NO SENTIDO DO DISCURSO. (ALGO CONTRADIZ O QUE FOI DITO ANTES). HÁ TAMBÉM O SENTIDO DA CONTRAPOSIÇÃO.

Algo se contrapõe a outro. E internamente algo está constituído de contradição/contraposição. O capitalismo encontra sua contradição no socialismo, mas antes mesmo já contradizia o mundo social anterior. E o capitalismo em si é constituído de contradições . sendo formado por grupos sociais diferentes possui em seu interior a contradição/contraposição desses grupos. Ver a contradição apenas como algo conceitual só é possível para quem observa a realidade como algo sem contraposição, sem contradição. E isto não impede há quem afirma que a realidade é contraditória de produzir um discurso coerente. Pelo contrário, pode mesmo dizer que a incoerência está em quem a partir de um real cheio de contradições construir uma "realidade" discursiva que não represente esta contradição. Neste sentido não cabe mesmo o relativismo. Dizer que o ser é e não-é ao mesmo tempo não pressupõe cair no relativismo. O que se exige é a percepção da transformação daquilo que é visto positivamente como dado e que , neste sentido, é uma dado em transformação. Realmente este pensamento é muitas vezes negado, pois nem sempre a realidade da transformação é percebida e/ou assumida pelo pensamento  por isso mesmo, há quem negue esta realidade, a de que tudo está em transformação e que tudo deixa de ser (merece morrer, se completar). Não se trata apenas, portanto, de uma contradição conceitual entre o que se diz e o que se nega sobre o ser no discurso. É uma contradição do próprio ser em si e com aquilo com o qual se relaciona.


domingo, 5 de julho de 2015

HÁ QUEM ME QUEIRA POESIA

"mas quero que este canto torto/feito faca/
corne a carne de vocês"*

Há quem me queira poesia
doce, suave, intocável.
Mas somos todos
todos, inclusive os intocáveis,
somos todos poesias.
Como o canto torto
como faca nordestina
também corto carnes
firo corações
rasgo falas
furo paredes
decepo sutilezas
despedaço suavidades
penetro doces.
Há quem me queira poesia
outra poesia, não a que sou
Há quem não me queira poesia.


Rio, 5 de julho de 2015 (1h e 14m)

*A palo Seco, Belchior

terça-feira, 28 de abril de 2015

LABIRINTO

Não, não há saída
imperativamente
todos os caminhos
todas as estradas
todos os rios
tudo
me arrasta para mim
não há saída
Rio, 28 de abri de 2015 (2 h e 3m)

terça-feira, 7 de abril de 2015

Poema Inércia de Jorge Willian - Música de Gílber Martins


Gilber deu ao texto uma marca sonora que eu não esperava. Gostei muito do resultado da junção melodia-poema, inclusive porque, ao declamá-lo em sua interpretação, Gilber mantém o  poema como um chamado à leitura e, ao musicá-lo e cantá-lo, nos mostra outros caminhos para o fato poético, o da "asa ritmada".



INÉRCIA


Não há serenata
o violão faltou ao encontro
a janela não se abriu
não brilharam as estrelas
e nem o luar iluminou
a tarde não partiu
e a noite não veio.
O tempo parou
a vida junto estagnou
a inércia do não movimento
emprenhou os espaços.
Tudo porque a morena
a linda morena
a bela morena
a morena
ainda não sorriu.

domingo, 29 de março de 2015

TEMPORAL 2

(Para amiga Rosi Coelho)
Se cai suave é temperança
se violenta é temporal.
Água quando cai
bruta é temporal
banho de chuva
correria, futebol.
Água quando cai
suave é temperança
mas se há fresta no telheiro
ou se este não existe
vem pra doer bem doído
como a dor da chuva agora
chove lá fora
pinga aqui dentro
e não há pinga
que esquente
o pingo
que cai
na gente.

Jorge Willian
Rio, 29 de março de 2015

TEMPORAL

A chuva caia devagar
agora cai de com força.
E de com força doí, destrói
corrói tudo, tudo mesmo
até nós.
29 de março, 20 h

SAUDADE NÃO É VONTADE


Saudade não é vontade
não é coisa que dá e passa
é coisa que mata
ou se morre
que renasce o distante
que nos consome
ou engorda.
Saudade não é vontade
é e não é real
mas sempre verdade.
Saudade do que fui
ontem, anteontem e nem sempre
do pirralho que fui
e dos amigos pirralhos também.
Sente, saudade se sente
de coisas vividas e sonhadas
há tempos passados.
Mas esta saudade de agora
tem uma estranheza:
saudade do hoje
que amanhã já não será.
Saudade não é vontade
é e não é real
mas sempre verdade.
Rio, 29 de março de 2015 (19h e 46m)

quinta-feira, 26 de março de 2015

O risco de chegar atrasado ao dia do golpe

REPASSO AQUI A POSTAGEM DO PORTAL "CARTA MAIOR".

O risco de chegar atrasado ao dia do golpe


Fortalecidos pela magnitude das manifestações do dia 15 de março, os organizadores do dia 12 de abril já organizam um golpe na democracia brasileira.

 
A coluna de Jânio de Freitas no jornal Folha de S. Paulo do domingo 22 de março – “Começar mais uma vez” - deve ser justamente saudada como a expressão nitidamente instalada na consciência democrática e republicana brasileira de que a direção do PSDB já está publicamente inserida em uma campanha golpista. Como recordamos no ensaio publicado nesta Carta Maior  -  “Por que ainda é possível derrotar a campanha golpista do PSDB? - , já havíamos formulado este diagnóstico em dezembro de 2014.

Não há mais lugar para a inconsciência ou subestimação da ameaça que ronda a democracia brasileira: já está em curso uma disputa pública bastante avançada sobre a legitimidade democrática da interrupção do segundo mandato da presidenta Dilma Roussef em seus inícios. Pesquisas recém divulgadas - elas próprias fazem parte da campanha midiática - dão um alto grau de impopularidade da presidenta, quatro quintos da população com a opinião de que ela sabia da corrupção na Petrobrás, três quintos marcando a opção de que ela não fez o que deveria para interrompê-la. Na pesquisa CNT/ Sensus, divulgada no dia 23 de março, 59% da população já apoiaria a proposta do impeachment da presidenta, seguindo altos índices de impopularidade do governo e de rejeição .

Se já é nítida a vontade e também a estratégia golpista do PSDB, é preciso agora diagnosticar o tempo em aceleração do processo político em curso: há um risco enorme do governo Dilma e das forças políticas que o sustentam chegarem atrasadas... ao dia do golpe.

Há boas razões para prever que o anunciado dia 12 de abril, marcado para convergir um novo protesto nacional de ruas contra a presidenta Dilma e o PT, está sendo pensado como um dia da instalação do golpe na democracia brasileira. Como isto poderia se dar?

A sua formulação de legitimidade democrática já está sendo publicamente exposta por FHC, cuja voz pública tem desde o início formulado o diapasão dos golpistas: se em dezembro já questionava a legitimidade da vitória eleitoral de Dilma, atribuindo a ela uma semi-legitimidade ou uma idéia de um país dividido ao meio, após o dia 15 de março já diferencia o impeachment por razões políticas do impeachment por razões técnicas: o primeiro poderia se dar por uma razão clara de ingovernabilidade. Seria uma decisão política do Congresso Nacional. Esta formulação tem, em linhas gerais, sido seguida por várias lideranças nacionais do PSDB.

O dia 12 de abril poderia, em uma imaginação golpista, através do cerco simbólico a centros do poder, inaugurar uma agenda de um lock-out nacional  – como se fez um teste, por exemplo, misturando reivindicações de caminhoneiros com o “fora Dilma” - , em uma cena dramaticamente configurada por todos os meios de comunicação empresarial de massa. Seria previsível neste contexto o acirramento dos ataques, inclusive físicos, a símbolos e sedes do PT, seguindo a linha da criminalização do partido que já freqüenta as manchetes dos jornais, como a manchete de O Globo de 21 de março.

Neste campo de previsão, o dia 12 de abril seria o dia 15 de março mais centralizado politicamente na exigência da renúncia ou saída imediata de Dilma (como aliás vem já sendo convocado nas redes), com mais envolvimento empresarial, com mais dramatização anti-petista e anti-governo (através de novas delações, depoimentos de Youssef na CPI, generalização das denúncias de corrupção em outras empresas estatais, algum testemunho ou ilação vinculando a corrupção ao PT ou à campanha de Dilma), com mais simbolismo (centro em São Paulo, mas simbolicamente estabelecendo o cerco em Brasília ao Palácio do Planalto).

Em uma cena de tal dramatização, seria possível confiar que a maioria da Câmara Federal está suficientemente posicionada a favor do governo para resistir a uma ação direta amparada em forte sentimento nacional captada nas redes midiáticas ou pesquisas de opinião?

Três dinâmicas

Toda a inteligência da estratégia golpista do PSDB está em que o seu núcleo real de comando organiza a manifestação pública mas não a convoca:  para lhe dar um sentido “cívico”, para além dos partidos, as redes sociais e o engajamento direto da mídia empresarial de massa cumprem este papel.  As principais lideranças do PSDB, do DEM, do PPS, do Solidariedade aparecem de forma discreta ou apenas “apóiam”, dissolvidas no verde-amarelo cívico.

Sem a presença explícita da mediação dos partidos, governos ou empresas, esta dinâmica de ruas, redes e mídias pode desenvolver todo o seu potencial anti-democrático em três dimensões fundamentais.

Em primeiro lugar, a aceleração do tempo político: não há que esperar o processo jurídico, o processo parlamentar da democracia. Há, de fato, uma sincronia entre a ação do PSDB que queria evitar a posse de Dilma e já adiantava o compasso da desestabilização do governo antes do seu início e a marcha da impaciência que mexe com os nervos à flor da pele dos manifestantes. Um jovem, bastante aplaudido ao microfone,  na manifestação do dia 15 de março na avenida Paulista acusava os “políticos que querem sangrar o governo Dilma” de serem conciliadores!

Em segundo lugar, a intolerância deve saturar toda a cena: não se deve duvidar ou discutir a verdade de que o PT e o governo Dilma são os principais culpados da corrupção no Brasil. O discurso cívico correto que não se deve tolerar a corrupção é dirigido unilateral e de modo viesado para o discurso desqualificador de que não se deve tolerar o PT ou o governo Dilma. Esta fuga ao contraditório democrático também não é espontânea mas criada pelo tratamento seletivo das investigações, pela sua publicidade dirigida contra o PT nos oligopólios de comunicação e, principalmente, pelo discurso oficial que tem a sua origem, desde 2005, na inteligência do Instituto FHC.  “Para acabar com a corrupção no Brasil, a solução é simples: basta tirar o PT do governo”, afirmou Aécio Neves no último debate na campanha eleitoral de 2014; “perdi a eleição para uma organização criminosa”, reafirmou após as eleições.

Em terceiro lugar, a cena da manifestação deve estar aberta ao discurso do ódio: não deve haver limites para a violência verbal ou simbólica. Erra, como quase sempre, o colunista parcial Elio Gaspari:  não se tratam  de excentricidades ou slogans de pequenos grupos fascista ou de ultra-direita. O micro-fone está aberto à barbárie: um torturador não foi convidado à fala ao microfone na Paulista? Bonecos da  presidenta Dilma e do ex-presidente Lula enforcados vistosamente na grade do viaduto?  Mas esta violência sem limites está já, como se observou, na fala das principais lideranças do PSDB e nos meios midiáticos que controlam: a presidenta com o pescoço pronto para ser ceifado na charge da primeira página de O Globo, a presidenta Dilma rodando bolsinha na charge que ilustra um ponto de vista do editor do site UOL!

Vigília democrática

Esta inteligência estratégica golpista que arma o tempo acelerado, a intolerância e o discurso do ódio deve ser enfrentada desde já e com a máxima urgência por uma inteligência democrática, capaz de mobilizar os fundamentos dos sentimentos democráticos, republicanos e socialistas do povo brasileiro.

O primeiro desafio é tomar a pulsão verde amarela do tempo golpista através da antecipação de seus passos. Já há elementos e consciência suficientes para propor à sociedade brasileira uma vigília democrática verde-amarela e de todas as cores e a formação de um amplo movimento em defesa da democracia, das liberdades e contra a corrupção. Esta vigília democrática deveria ser capaz de mobilizar e denunciar oficialmente as intenções golpistas de FHC, Aécio Neves, Rede Globo e dos grupos proto-fascistas que organizam as manifestações pelo impedimento político da presidente. Ele deveria ser capaz de formar em torno de si toda uma rede diária e permanente de comunicação democrática e popular, como fez Brizola em 1962 formando a partir de uma rádio gaúcha toda um rede nacional pela legalidade da posse do vice-presidente Jango Goulart após a renúncia de Jânio.

O segundo desafio é o de desconstruir a autoridade do PSDB de conduzir a luta pelo fim da corrupção sistêmica no Brasil, através de uma massiva campanha pública capaz de furar o bloqueio do anti-pluralismo midiático. As lideranças que conduzem a campanha golpista estão cercadas por todos os lados de denúncias documentadas de farta e sempre impune corrupção. O PSDB é certamente, pode se comprovar com razão e provas, o partido que dá a maior cobertura e apoio à corrupção no Brasil! Em particular, a figura de Aécio, presidente do partido golpista, é alvo de vídeos de Youssef, provas documentadas e periciadas, testemunhos convergentes que indicam a sua presença em escândalos de corrupção. Os golpistas conseguirão manter isto à margem do conhecimento da opinião pública nacional, da maioria dos brasileiros?

O terceiro grande desafio é o de recoesionar a base política, social e eleitoral do segundo governo Dilma através de uma rápida e urgente reorientação de política econômica, retomando os temas do desenvolvimento, da construção dos direitos das classes trabalhadoras, da ampliação e qualificação das políticas públicas, do enfrentamento dos preconceitos contra os negros, as mulheres e os gays.

Não se pode lutar contra o ódio da direita golpista sem mobilizar, de modo profundo, as paixões e esperanças do povo brasileiro em defesa de seus direitos. Isto não acontecerá se o discurso, a imagem e os símbolos do governo estiverem atados à linguagem fatal da recessão, da restrição, mesmo que na margem, de direitos, na limitações das políticas públicas.

Esta vigília democrática, por sua representação e força acumulada,  com sua capacidade de mobilização e denúncia, ainda teria condições de paralisar a estratégia golpista que converge para o próximo dia 12 de abril.

Juarez Guimarães
José Cruz/Agência Brasil

http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FPolitica%2FO-risco-de-chegar-atrasado-ao-dia-do-golpe%2F4%2F33132

sábado, 14 de março de 2015

INÉRCIA


Não há serenata
o violão faltou ao encontro
a janela não se abriu
não brilharam as estrelas
e nem o luar iluminou
a tarde não partiu
e a noite não veio.
O tempo parou
a vida junto estagnou
a inércia do não movimento
emprenhou os espaços.
Tudo porque a morena
a linda morena
a bela morena
a morena
ainda não sorriu.


Rio, 14 de março de 2015 (04h e 36m)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

TANTOS CAMINHOS


Das sementes 
dois viés iniciais se fizeram.
O primeiro aprofundou-se
abriu seu caminho entre húmus, pedras, 
terras e outras raízes.
Não satisfeito este viés se fez muitos
espalhou-se em raízes várias e menores
ali alimentou-se, grudou-se
descobriu o oculto invisível.

O segundo viés os ares buscou
fez-se tronco e galhos
e desejoso de asas e penas
se deixou criar folhas
voou ao leo muitas vezes
levado pelos ventos
tragou a luz
descobriu o oculto visível


Rio, 02 de Janeiro de 2015




segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A CIRANDA

A CIRANDA
E o vento despertou
fez-se deus
animou a terra
revigorou o fogo
fez mover a água
e os galhos criando asas
moveram-se ao leo
raízes apassarinharam-se
olhos não sabiam as direções
bocas gritaram
gados mugiram
após virarem pássaros também
pardais rodopiavam no ar
na ciranda que os envolvia
uniram-se às vacas, galhos e raízes
tudo se fez um na fúria leve
do despertar do vento-deus.

Rio, 18 de dezembro de 2014 (12 h e 41 m)


https://www.facebook.com/video.php?v=815318265201568

Riacho

Riacho
(Para Marcelle)

Uma vez fui menino
só uma vez, se me lembro
e foi como um riacho
que escorre e nunca volta
e nunca sai dali também.
Fui menino,
uma vez, depois nunca
nunca mais naquele dia
só nos outros
mas era um outro menino
nunca mais o mesmo
uma vez fui e só uma vez
assim como hoje
menino ainda
riacho antigo
escorrendo, escorrendo
sem volta.

Rio, 16 de dezembro de 2014 (01h e 54m)

domingo, 25 de janeiro de 2015

AS CORDAS



Acorda, lá vem o dia
e ele te sacoleja
te querendo desperto
a corda de seu velho relógio
acelerou o tic-tac repetitivo 
seu compasso se perdeu
ficou apenas esta disritmia melancólica
mas a cor deste dia te chama:
acorda!
levanta, escove e passe a corda
entre os dentes
que o dia te ordena um sorriso
e a cara de felicidade estampada
que lá fora te esperando
balança a corda do dia
enfia vosso pescoço
agradeça ao sol e sorria
balance pendurado no tempo
este que não é teu nem meu
e sorria
um defunto triste desagrada
sorria que a noite chegará
depois, porém, do trânsito que te levará
para o matadouro diário
depois, porém, do afago falso dos amigos
depois, porém, do esporro rancoroso
de vosso patrão rancoroso
acorda, dormirás no balanço da condução
dormirás o dia inteiro acordado
amanhã será outro dia
e sua nova corda já está sendo trançada
teu pescoço novamente ornamentado será
acorda.

Ou acorde diferente
mande tudo às favas!
acorde de verdade
e retire as cordas de vossa vida
desacelere o tic-tac
crie seu compasso
gargalhe
ria
sorria
gargalhe
retire as cordas dos galhos dos dias
retire as amarras
os grilhões
e os grilos
veja este ritmo perdido
sem corda, sem ponteiro
sem seta
sem meta
sem veto
sem certo ou errado
acorde!
não porque o dia manda
que nem precisa ser dia para acordar
acorde...
que por agora
deitar-me-ei outra vez.
acorde, deite-se do meu lado.

Rio 15 de dezembro de 2014
(05h e 41m)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A DIALÉTICA E A CONTRAPOSIÇÃO

       


O PENSAMENTO DIALÉTICO NÃO TRATA APENAS DA POSSIBILIDADE DA CONTRADIÇÃO NO SENTIDO DO DISCURSO. (ALGO CONTRADIZ O QUE FOI DITO ANTES). HÁ TAMBÉM O SENTIDO DA CONTRAPOSIÇÃO. Algo se contrapõe a outro. E internamente algo está constituído de contradição/contraposição. O capitalismo encontra sua contradição no socialismo, mas antes mesmo já contradizia o mundo social anterior. E o capitalismo em si é constituído de contradições . sendo formado por grupos sociais diferentes possui em seu interior a contradição/contraposição desses grupos. Ver a contradição apenas como algo conceitual só é possível para quem observa a realidade como algo sem contraposição, sem contradição. E isto não impede há quem afirma que a realidade é contraditória de produzir um discurso coerente. Pelo contrário, pode mesmo dizer que a incoerência está em quem a partir de um real cheio de contradições construir uma "realidade" discursiva que não represente esta contradição. Neste sentido não cabe mesmo o relativismo. Dizer que o ser é e não-é ao mesmo tempo não pressupõe cair no relativismo. O que se exige é a percepção da transformação daquilo que é visto positivamente como dado e que , meste sentido, é uma dado em transformação. Realmente este pensamento é muitas vezes negado, pois nem sempre a realidade da transformação é percebida e/ou assumida pelo pensamento E por isso mesmo há quem negue esta realidade, a de que tudo está em transformação e que tudo deixa de ser (merece morrer, se completar). Não se trata apenas, portanto, de uma contradição conceitual entre o que se diz e o que se nega ao se em seguida no discurso.


Uma porta é uma porta, estando aberta ou fechada. A contraposição de estar aberta ou fechada ainda não dá conta da contradição interna da porta que está deixando de ser, que está "morrendo" passando pela transformação inerente ao seu ser que está em relação com o real onde está inserido. Além disso, ela se opõe aos demais elementos do real: o portal, a parede, o lado de fora e de dentro do espaço em que foi colocada. A sua positividade de ser porta não existe sem a própria negatividade de não ser os demais elementos. E uma porta em si, isolada de tudo, só "existe" no mundo das ideias, no mundo conceitual, no mundo do discurso. No real ela só existe em relação e, portanto, em contraposição com os demais elementos do real. A sua materialidade só é possível em relação. Além disso, internamente ela é composto de átomos que estão em relação entre si e entre os demais átomos fora da porta.

MANTRATHOMÁS

Ei, Menino, amo-te
Amo-te, menino
Amo-te
Ei, Menino, amo-te
Amo-te, menino
Amo-te
Ei, Menino, amo-te
Ei, Menino, amo-te
Ei, Menino, amo-te
Amo-te, menino
Amo-te
Amo-te
Amo-te
Amo-te
Amo-te
Amo-te
Amo-te


29 de novembro de 2014

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

ABRAÇO


(Para Amanda)

Quando a noite 
dentro aqui faz morada
do lado de fora]a luz envolve-me

Quando o silêncio
tudo atordoa por dentro
guizos alegres
cantam a minha volta

Assim, sou
quando
me abraças:
noite iluminada
silêncio que canta.

Rio, 17 de março de 2011
Jorge Willian

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

FOTO



Quando olhei
Quando observei
Quando realmente admirei
Já não estava mais lá
De fato já não existia
De fato já se fora
De fato já não era mais um fato
Quando olhei para aquela foto
Aquele que ali eu via
Já nada se parecia com aquele que via
Era outro aquele eu
Era eu deixado de ser
Era eu que não era mais
Quando olhei
Quando observei
Quando finalmente admirei
Já não existia
E apenas passaram-se
Um minuto.

Rio, 28 de Novembro de 2014 03h e 17 m.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Pés


(Para Alê e suas meninas)
Os caminhos que fazemos
seguem passos diferentes
e direções várias
invariavelmente
se cruzam
se unem
na distância e sua ausência
ou na tangente e seus abraços

O que fazemos
é o que somos
embora, pedras às vezes,
quase sempre somos pés e seus caminhos
e somos pés que se encontram
que trilham caminham novos
que se reencontram
somos o que fazemos
somos caminhos
somos pés.





Jorge Willian (Rio, 21/11/14 10h e 56m)